quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Todas as Mulheres

Se o que quero é ver apenas sol, montanha se por, viver, calor
eu quero é abraço, manha no lençol, quero descaso com a dor
Se o que quero é domingo, lindo mar, e ver-te vindo, rindo mais
eu quero sim, não, quero talvez, outra vez em mim tua paz

Se o que quero é andar ao lado, e no sábado baixar na augusta
me diz afinal o que que custa, bem ou mal, perder-se nunca;
Se o que quero é bom dia, café, louça na pia, planos ou não
eu quero todo o nada de uma madrugada vazia na palma da mão

Eu quero é o fundo do vento, o não dar pé, intempéries até, quero torcer
eu quero é o que todas as mulheres do mundo me ficam devendo, se só o que eu quero é um elo a você.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

De futuro algum

Houveram algumas risadas rimadas em certa morna manhã de domingo, colhidas entre piadas sobre eles mesmos.
Houve um rosto na diagonal que sibilou um 'seu idiota' disfarçando o 'te adoro' que ameaçou escapar dos receios.
Houve mesmo, não se dúvida, um segundo raro que não esperava por futuro algum.
Mas ele não sabe bem se ela pode se lembrar.
Existiu um olhar distante, pesado de tanta felicidade, quase chorando orgulhos de vê-la chegar por detrás de um sorriso.
Existiram palavras que a procuravam lhe embrulhar os medos, um 'vai dar tudo certo' que só mesmo os corações podem traduzir para um confortável 'estou aqui'.
Exitiu sim, não se pode negar, um momento repleto que não precisava de futuro algum.
E ele espera que ela ainda goste de recordar que havia quatro pés a balançar da rede, duas mãos juntas em baixo da mesa e um olhar de esguelha que sem dizer nada zombava do tolo que contava vantagens no bar.
Que talvez ela sinta um bem-estar, ao lembrar do copo d'água do lado da cama, dos topos dos prédios que lhes abraçavam na varanda, do barulho do mar que logo se mostrou bem mais interessante do que as mesmas músicas do velho violão.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Piquenique

Que não queira me ver
todos os dias
que ligeira, tente manter
nossa alforria
tudo bem
Mas nossa magia não
não abra mão
de nós.

Que tu queiras fugir
quando acordar
não se despedir
nem me beijar
tudo bem
Mas leve-me como enfeite
mesmo que tu me deixes
a sós;

Que queira escolher
nossos prazos
que venha a nos ater
aos acasos
tudo bem
Mas não perca nossos calos
e não esqueça do que lhe falo
sem voz.

Se após dividir
tantos sorrisos
ainda quiseres seguir
teu juízo
tudo bem
Mas leve nossa alegria contigo
que de nostalgia eu sei que sigo
veloz.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um não-sei-o-quê de alegria

Encontro em você um não-sei-o-quê de alegria, e acho que deve bastar.

Não prometemos futuros, nos mantemos seguros e basta o que deve achar.

Acordo ao seu lado abraçado ao dia e sonho que devo acordar.

Sussuro algo feliz que lhe diz ser maduro e acordo que devo sonhar.

E depois, que reste a nós dois apenas nós mesmos, pois sonho que deve achar.

E misturo sua sombra ao meu escuro e acho que deve bastar.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

As mãos e seus respectivos bolsos

Não se pode calcular, com muita exatidão, quanto desentedimento há entre eles. Nem, também, conseguem eles ver, o quanto deles ainda resta nessa providencial distância.
E não, definitivamente, não fariam tudo outra vez se soubessem que ouviriam, cedo ou tarde, o eco responder. Se soubessem o quão frequentemente se chora por nada.
Antes entrelaçadas, agora duas mãos não se buscam mais. E voltam seus cinco dedos para seus respectivos bolsos. Como se fosse obra do destino e suas decisões tão sábias quanto irrevogáveis. Ora, tudo tem, em algum lugar da sua plenitude, uma razão lógica e simplista, não é mesmo?
Crente de seu poder de abstração, a mão fina de linhas sútis resguarda-se resignada, digna de teu sublime ponderamento. Quente em seu refúgio, crê-se superior a qualquer outra figa que já tenham rogado seus dedos cruzados, qualquer mercê que, pra se ter uma idéia, tenha ela, espalmada, suplicado aos céus.
E se contenta sim, porque não, em ser agora tão mais crítica na escolha das mãos que lhe acenam. Em um interim de deixa-pra-lá caprichosamente planejado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Eterno Presente

A luz estroboscópica piscava no ritmo da música envolvente, que vencia, embora aos poucos, a timidez de Biela. O medo tinha passado um pouco, estava mais à vontade. Estava, afinal, feliz por estar ali.
Isso quem disse foi a pinga.
- Biela, o Ricardo não pára de olhar pra você, gata! – Isso quem gritou foi Cláudia.
- Cê acha?
- Orra!
O peito da menina gelou por completo. Talvez Cláudia tivesse razão. E o medo era justamente que tivesse.
- Mas o que que eu faço Clau?
- Como assim?
-Eu sou tímida, e feia, e…
-Pára com isso boba, sei lá, fala alguma coisa no ouvido dele e num tira o rosto depois, num sei.
-Mas, agora?
-Biela, vai ser sempre agora!
Fazia algum sentido, isso quem disse foi a lógica. O presente era mesmo eterno, embora fosse sempre tão fugaz quanto possível. Já um pouco alta, Biela espantou-se com sua coragem, e foi mesmo falar com Ricardo. Colocou a mão nas costas largas do rapaz fazendo com que ele abaixasse o rosto providencialmente.
- Nossa, to um pouco bêbada. – Não se sabe bem quem disse isso, Biela ou a esperança.
A garota sentiu-se corar, mas, forte, manteve o rosto ao lado do ouvido do Ricardo. Podia sentir seu cheiro, cheirava a amanhã. Ele então virou o rosto devagar.
E se ele perceber que eu nunca beijei ninguém?
Isso quem perguntou foram as pernas bambas de Biela. Que retirou o rosto.
Quase! Disseram as sobrancelhas da Claudia.
- Ricardo? – Uma bonita moça estava agora ao lado dos três, tinha um grande e bonito decote. Muito blush.
- Oi Bianca! – Entrelaçaram-se aqui num forte abraço. – Quanto tempo!
Ela é tão bonita, tão magra. Disse a baixa-estima de Biela. - Oi meninas. - E simpática.
Era uma conhecida de Ricardo, estudaram juntos ou coisa do gênero. Ela agora conversava com ele bem perto do rosto, e não o tirava depois.
Biela resolveu ir ao banheiro.
No espelho seu reflexo lhe balançava a cabeça. Não há nada que se possa fazer, somos feias, somos gordas, a nós nos resta as novelas, os chocolates, os contos de fadas. E menor do que nada, Biela decidiu pedir outra caipirinha. Ao seu lado no bar um jovem virava uma tequila.
- Nossa, to um pouco bêbado. – Isso quem disse foi o até bonito rapaz.

Isso quem disse foi a sina.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A velocidade das nuvens

O consultório era pequeno, apertado. Parecia mais um depósito de materiais cirúrgicos. Suas mãos ainda tremiam, como um forte terremoto que provavelmente não deixaria em pé nenhuma das suas expectativas.
- Menina, sei que é muito jovem, mas tem certeza que não quer experimentar o milagre de ser mãe? – Disse Dr. Julio, de pé ao lado da cama, com seu jaleco impecável e seu cabelo recém pintado de preto.
Natalia olhou de canto de olho para seu professor, Márcio, que agora tinha um cenho pesado e bruto, assustadoramente diferente dos sorrisos gratuitos que um dia carregou. Voltou a olhar para sua camisola verde, limpa. Nunca ninguém tinha colocado assim. “Milagre de ser mãe”. É claro que ela queria. Quando soube foi correndo contar para seu grande amor. Seus lábios doíam de tanto sorrir, tinha enfim realizado um grande sonho, criar uma família, e Márcio, embora casado e mais velho, era o pai perfeito.
Mas o professor deixou de ser aquele homem gentil e carinhoso de sempre, que lhe comprava bombons todas as quartas. Transformou-se num monstro insensível e bruto, e Natália, pela primeira vez, conheceu a tênue linha que separa os sonhos dos pesadelos.
- É claro que ela tem certeza Dr., ela tem quinze anos. Que raio de filho ela conseguiria ter. – Explodiu Márcio com uma ira tão pesada que Natália sentiu que talvez seu filho estivesse saindo com as lágrimas.
O médico soltou uma leve risada inadequada.
- Márcio, ela tem corpo de mulher, desenvolvido, pode cientificamente ter quantos filhos Deus quiser.
- Monetariamente ela não pode ter quantos filhos eu quiser, Eu lhe paguei cinco mil reais para fazer perguntas ou para salvar a porra do meu casamento? - Márcio lançou palavras e perdigotos, palavras que nunca mais poderiam ser engolidas.
Natália olhou para Márcio sentindo-se algo qualquer que não de valor. Era sozinha como um cravo que por engano nasceu no asfalto. Queria poder vomitar todos os dias em que acreditou que viveria ao lado do professor, todas as malditas vezes que ele a levou ao motel. Não queria ser apenas outro bombom.
- Tudo bem doutor. – Algumas palavras se confundiam aos soluços – só fico triste por não ser eu a mãe dele, e ele não ser essa criança. E no final é melhor mesmo, que meu filho não nasça num mundo que nem esse. – sentiu-se bem ao dizer isso.
Com um breve sinal, Dr. Julio pediu que Cris fechasse a cortina que envolvia a cama e começasse o procedimento.
- Acalme-se menina, você ainda é muito jovem. – Disse a enfermeira enquanto passava um algodão gelado embebido em álcool nas costas da Natália – vai ter outras oportunidades.
Do lado de fora, Dr. Julio tentava apaziguar o professor.
- Cacete, Márcio, num fala assim perto da menina, quer destruir ainda mais a vida dela. Além da vida desse seu filho, claro.
- Estou salvando a vida dela, a minha e a da minha esposa. A criança ainda nem nasceu, que vida é essa que estou destruindo?
- Mas você também é muito burro, cacete. Camisinha não custa nada. Se bem que essa menina ai é muito gostosa mesmo, acho que eu daria no pelo também. É que nem comprar um bombom suíço e comer com o papel. – Dr. Julio lavava as mãos e ria da sua própria comparação. – entendeu?
A anestesia começava a fazer efeito, e Natália em seu último esforço consciente, virou o rosto para a janela. As nuvens pareciam correr, apressadas para talvez salvarem-se de uma frente fria maldosa qualquer. Ou, quem sabe, perseguiam-se umas as outras, brincando de ser nuvem antes de ter, impreterivelmente, de chover.
Natalia queria ao menos que Márcio lhe apertasse a mão, como fazia quando ela tinha medo da chuva no trânsito, ou quando assistiam a um filme de terror. Queria muito ter esse filho.
Márcio corre e desculpa-se.
Seu rosto agora formigava.
Márcio dá um beijo na esposa e mostra a língua para Natália.
A jovem tenta se concentrar, está delirando.

- Márcio, agora que não to mais grávida, a gente pode continuar a se ver, né?
- Claro, meu amor, olhe aqui o que eu te trouxe.
- Outro bombom, brigado, é o que eu mais gosto.
- Eu sei.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Samba de convite (ou vice-versa)

Veja bem, mulher
se quiser, me dê atenção
é tão sem porque, você
querer viver de tanta mentiiiiraaaa

Abre teu peito que entro,
e tento lhe encheeer de paixão,
que penso que a viiida não cabe
numa ilusão.

Vem sim, se puder
Enfim, sem nem ter razão
Vem que é pro que der e vier
que se dobra a esquiiiina

Vem sorrindo, pedindo abraço
Abrindo espaaaço pra você no colchão
Que o vento da siiina não sabe
Ter compaixão

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Xilocaína

O limpador de parabrisa se esforçava, mas perdia sua função debaixo daquele temporal. Mas a maior preocupação de Jacob era ver seu filho tão cabisbaixo ao seu lado. Com a cabeça no vidro parecia querer misturar suas lágrimas com as gotas do outro lado. Chorava sem soluçar, numa espécie de orgulho juvenil, parecia chorar justamente por estar chorando. Nem quando as lombadas faziam-lhe bater a cabeça com uma força considerável, ele mudava de posição.
- Não fica assim, Gabriel. A vida é assim mesmo. Você não pode fazer com que as pessoas gostem de você.
Gabriel não se mexeu, secou o rosto parecendo mais triste por seu pai ter percebido que chorava. Pensou que seu pai não o entendia. Ela era o amor da sua vida, não era uma paixãozinha de criança. Nunca fora tão feliz quanto nos últimos meses. Tudo parecia perfeito. E agora, como se nada tivesse acontecido, num piscar de olhos, sua vida parecia nula, não havia nada que lhe entusiasmasse, não havia onde guardar seus sonhos, tão pesados agora, que os carregava só.
- Chegamos. Filho, o tempo cura tudo, você vai ver. Jogue seu vídeo-game, coma suas besteiras, quando você menos esperar vai ver como tudo passou. – Disse Jacob puxando o freio de mão. – Ta entregue, final de semana que vem nos vemos.
Não sabia como ajudar o filho. Queria poder entrar na cabeça dele e arrancar as memórias que o assolavam. Sabia como eram avassaladoras as primeiras paixões. Mas resguardou-se nessa frase e se resignou de que nada podia fazer. O tempo cura tudo.
Gabriel lhe beijou o rosto. Jacob pôde sentir ás lágrimas geladas e sentiu um grande vazio por dentro. Então, o garoto abriu o guarda-chuva e desceu.
Esperando que o porteiro abrisse o portão, Rosa se protegia do vendaval com uma calça jeans surrada e suas costumeiras blusas de um ombro só. Estabanada como sempre, bateu o guarda-chuva no batente do portão e se molhou um pouco. Peripécia essa que só mesmo Rosa conseguiria fazer. Uma forte saudade invadiu Jacob. Lembrou de como se divertia toda vez que rosa quebrava alguma coisa. O abajur, todas as suas xícaras, sua coleção de bonequinhos de chumbo – nem ficou bravo, de tão lindo que era tamanha atrapalhação – até a mesa de vidro da varanda ela estilhaçou. Eram tão felizes. Tudo parecia perfeito. Mas, num piscar de olhos, restavam apenas os restos de tudo que Rosa quebrou – incluindo aqui o coração de Jacob. Em meio a tantas lembranças, nem lembrava que não se falavam ja há cinco anos, e disse:
- Que chuva, Hein querida.
O ‘querida’ saiu sem querer, como por força do hábito. Seu peito gelou. Sabia que tinha feito uma grande besteira. Segurando o guarda chuva com uma mão e tentando, de uma maneira bem estranha, fechar o portão, Rosa levantou devagar o olhar. E como há muito não faziam se olharam nos olhos. Jacob sentiu uma forte golpeada. Rosa tinha uma expressão morta, uma indiferença fulminante. Apenas fechou o portão e seguiu Gabriel hall adentro.
Jacob começou a tremer um pouco. Era como se todo o sentimento tivesse voltado de uma vez, causando vertigem. Sentia uma falta imensa das noites embriagados em que contavam as estrelas, e que nunca passavam da décima. Saber que ela se embriagava com outro, contava estrelas com outro, quebrava porcelanas de outro, voltou a lhe ferir. E se passassem da décima? Perguntou-se.
Ainda com as mãos no volante, Jacob entendeu. O tempo não curava nada, nem poderia, sendo o tempo a própria dor. Pesando mais a cada segundo, a cada sexta-feira. A gente só se acostuma. Isso. A gente apenas se acostuma com a dor, como um sapato apertado, mas ela permanece lá, para sempre. E nada, nada mesmo pode retira - lá. Não há cura para as magoas.
Sentindo-se tão frágil ante ao imponderável, Jacob recostou-se na janela e chorou. Teve ainda a impressão de que a chuva lá fora tentava se misturar as suas lágrimas.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Ele deve-lhe flores

Difícil para ele ter de encarar a escuridão do quarto. Sem saber quantas mágoas cabem no infinito.
Virou de lado na cama umas duas vezes já sabendo que não conseguiria mesmo dormir. Nos seus ouvidos ecoava a fatídica frase que ele não sabia como poderia ter saído daqueles finos lábios que tanto se pressionaram contra os seus.
Eu tenho nojo de você. Nojo!
Da véspera agora resta apenas algumas expectativas retorcidas pelo insuportável peso do fracasso.
*
Seu rosto recostado na janela do ônibus era iluminado de quando em quando pelas fracas luzes da estrada. Tinha o horizonte perdido nos olhos. Não era bem tristeza que corria em suas veias, era uma espécie parca de desapontamento. Uma desesperança leve que lhe rasgava o peito como papel usado errado, inutilizado.
A lua cheia saiu de trás das nuvens e torceu os lábios como quem diz que da véspera resta apenas o desacreditar, corroendo sonhos como salitre.
*
Ele levantou-se e acendeu a luz numa vã tentativa de clarear qualquer coisa.
Pensou quão longo e solitário seria o caminho para longe de tudo quanto a envolvesse. E se perguntou se fizera tudo que podia, se ela sabia que certa vez ele a olhou dormindo e durante mesmo o breve segundo do vislumbre viveu toda uma vida ao lado dela em sonho, que ele construiria sim uma família. Alias, construíram, com um apartamento na zona sul, e um gato gordo.
Mas agora da véspera resta apenas o eco dos sussurros tão sinceros quanto o sol, mas que não voltarão com a aurora. Nunca mais.
*
Ela tinha todo o mundo do tempo nos olhos semi-cerrados de sono. Tudo que queria era poder dormir e esquecer. Talvez esquecer os últimos meses. Pensar que isso não seria possível fez seu corpo doer. Não seria possível esquecer, nem se quer dormir, já previra que viraria na cama umas duas vezes sem que o sono lhe tivesse alguma compaixão. E no escuro do quarto, ela sentir-se-ia pequena diante do infinito, que pareceria agora, tão, tão impreenchível.
Da véspera restaria apenas o vazio ao lado, incômodo, onde um corpo não estará mais.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Paula

Como se é de costume nos invernos fazia um bom frio nos últimos momentos daquela sexta-feira. Nota-se que também, embora timidamente, fazia-se uma sexta-feira naquele frio. Ela caminhava. Não. Ela seguia, pois caminhar exige um caminho, seguir segue-se qualquer coisa, mesmo que não se saiba bem o que; Ainda que tarde da noite, surgiam pessoas pelas culatras. Todas com seus devidos sorrisos, todas recostadas em devidos ombros quentes e reconfortantes. Ela sentiu-se então, meio que por imposição da melancolia, a mulher mais só que se tinham notícias.
Fazia mesmo muito frio naquele coração tão vazio, tão oco, que até o eco parecia bater os dentes. Não tinha idéia de quantas vezes passara pela avenida paulista. Perdia a conta de tantas lembranças. Mas, como se é de costume nos invernos, só conseguia visualizar uma memória quente. Quente e reconfortante. Não faz muito tempo, ali mesmo, naquela esquina tão comum, que tantos dobram tantas vezes, ela tinha encontrado um devido sorriso. Houve, nesta esquina, dois sorrisos geminados, destes que brotam do mesmo motivo embora em corações distintos. Houve ali algumas dezenas de dias que nunca se deram ao trabalho de nascer. Dias que ela daquela vez esperou, e vale ressaltar que não se sabe muito bem por que.
Fechou seu casaco e deixou que o capuz deslizasse, alguns fios de lã marrom lhe tocaram o rosto um pouco rosado do frio fazendo alguma cócegas, então desvencilhou deles com as costas da mão direita e acendeu um cigarro.
A distância das coisas que se quis e não se teve de tão infinita por vezes se acomoda numa esquina sem graça. Mais alguns jovens levemente ébrios dobraram a esquina, e como se é de costume nos invernos, continuaram suas vidas e não pareceram nutrir sentimentos pela esquina. Ela olhava seus pés, que a olhavam de volta. Pensou em talvez ligar para ele e entortou o rosto um pouco. Tratou de afastar essa hipótese, vale ressaltar que não se soube muito bem por que. Braços cruzados e cinzas ao chão. Ela não mais o conhecia, era como se tudo tivesse sido uma grande mentira, um sonho daqueles que teimamos em tentar voltar a dormir para não ter que subtrair dele a realidade. Ainda lembrava que ele mantinha sempre um sorriso jovial que parece dizer acredite em mim. Ele ainda tinha uma sobrancelha que a reverenciava e implorava: Acredite nele. Mas, vale ressaltar, ele também ainda tinha um... tinha uma...ele tinha algo ainda que dizia: é mentira, eu sei, é mentira. Quando:
- Com licença, você poderia me emprestar o isqueiro.
Como não é hábito no inverno, ao menos não nos invernos em que a gente acredita, lá estava ele, um sorriso leve e simples que não se dava nem ao esforço de mostrar os dentes. Ela, quando viu, também estava sorrindo, não conseguiu conter, fora à força da simpatia, isso. Um pouco desconcertada ela não disse nada, apenas deu o isqueiro branco, ali, bem ali, ainda na esquina, ele disse:
- Desculpe - aqui o isqueiro iluminou um rosto bastante familiar - mas eu não me perdoaria se deixasse você partir sem perguntar seu nome.
Ela então contorceu seu rosto o máximo que pôde, mas ele permaneceu impassível, tragando fundo com um ar de interrogação. Ela lhe mostrou as palmas das mãos e deitou o rosto levemente, ele não mudou de expressão. Então, ainda confusa, ela jogou a bituca fora e coçou a cabeça, pensou até que podia não ser ele, mas logo mudou de idéia, que talvez ele tivesse perdido a memória, não, não. Então o que diabos ele queria?
- Paula, meu nome é Paula. - ela tinha um cenho pesado, incomodado. Ela tinha algumas lagartas na barriga. Ele tinha um rosto com uma leve surpresa no canto do sorriso:
- Paula, acho um bonito nome, sabe, certa vez eu conheci uma Paula, se não me engano por essas redondezas, nossa eu gostava muito dela, de verdade mesmo sabe, mas, fazer o que, não funcionou.
Ela quis tanto que ele parasse com aquela brincadeira idiota. Seu olho direito marejou, sua voz quase ficou presa pelos dentes, mas acabou saindo:
- Não funcionou por quê?

- Às vezes as coisas não dão certo, e muitas vezes por motivos tão idiotas sabe, mas como tem tanta coisa em jogo as pessoas acabam supervalorizando algumas besteiras, ai não tem muito conserto não, só se fosse possível que as pessoas se conhecessem de novo. - aqui ele quase deixou escapar um sorriso jovial, quase sorriu um 'acredite em mim', mas não o fez. - mas, como não é possível não é? Sabe de uma coisa, deixe que eu lhe pague uma cerveja, bom, talvez duas, adoraria te conhecer, Pau-la.
Sem saber se sorria ou se chorava como é costume nos invernos, ela levantou a cabeça. As antenas multicoloridas postadas como cerejas sobre os prédios não emitiram opinião. O grande relógio digital em branco lá em cima marcava meia noite em ponto, um novo dia começava então. - Porque não, não é? Quem sabe você não tem mais sorte comigo. Mas, vou logo avisando, essa história de que você já conheceu uma Paula é muito xaveco barato pro meu gosto. Só vou aceitar porque estou com sede, como é comum no inverno. - Ela tinha um sorriso que dizia ' eu acredito no hoje, eu acredito no agora. '
- Ótimo - ele agora mostrava os dentes - mas juro que esta história é de verdade, um dia talvez você a conheça, mas ela não gosta muito de mim, acho.
- Ah, a gente nunca sabe ao certo.
Então, desceram em direção ao bar mais próximo, onde tantas outras pessoas também tinham esperanças reconfortantes para se recostar. Vale ressaltar, que agora sim, fazia uma agradável sexta-feira naquele frio tão costumeiro dos invernos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Manoel e a falta que faz

Primeiro Manoel acordou.
Ai então tomou um café, fumou um cigarro olhando as pombas e pensou que elas fariam sim falta se um dia não mais atravessassem a rua entre os postes ou defecassem invariavelmente em cabeças alheias.
Escovou os dentes e saiu.
No carro, Manoel ouve as notícias, não por elas em si, mas porque gosta de escutar as vozes monótonas dos radialistas para não sentir-se tão só.
Parou no estacionamento, ficou doze reais mais pobre.
E resolveu tomar outro café na padaria.
A atendente sorriu, sempre o fazia. Desta vez Manoel sorriu de volta, nunca tinha reparado na moça, tinha lá seu charme. Fez então uma graça, ela sorriu outra vez. Pagou, deu caixinha, e ficou 4 reais ainda mais pobre.
Fumou e pensou que as atendentes fariam sim falta, se não sorrissem invariavelmente.
Quando chegou ao escritório, lembrou que teriam uma reunião às dez. Daquelas reuniões onde se decidem o que será decidido na próxima reunião. Pensou que essas não fariam falta, definitivamente.
Leu seus e-mails, triste, afinal todos eram de trabalho ou spam. Começou a escrever um para a sua ex-namorada, mas quando estava na décima linha, parou e apagou tudo.
Já havia ligado no final de semana passado quando ela disse que estava viajando, era a vez dela de dar sinal de interesse.
E se guardou atrás desta crença.
Na reunião, rabiscou grandes narinas na agenda, que Ricardo ao lado reconheceu como sendo caricaturas do Chefe Osmar, e escreveu embaixo "Escala 1:1000000".
Não riram.
Depois, nas escadas de emergência fumou outro cigarro. A Sheila, secretária do Osmar apareceu. Manoel puxou assunto. Falou do tempo, do feriado, de jazz. Mas Sheila permanecia monossilábica.
Então se conformou em algumas olhadas rápidas para o decote.
Que Sheila fez que não percebeu.
Mas, antes de sair ela virou e perguntou ao Manoel seu e-mail. "Conheço um barzinho muito bom, no centro, que sempre toca um jazz magnífico, quem sabe não vamos qualquer dia".
Manoel tentou conter o entusiasmo: "Quem sabe".
Pensou que as secretárias gostosas fariam também falta.
Almoçou na padaria para ver se encontrava com a garçonete, mas ela não estava lá.
Prato executivo, se permitiu uma skol, depois café e cigarro.
O resto da tarde, Manoel fingiu que trabalhava, mas navegou na internet, jogou paciência ( não ganhou nenhuma ) e viu umas fotos sensuais de modelos irreais. Além, é claro, de olhar o relógio umas duas vez por segundo.
Não soube dizer se as modelos sensuais fariam falta, afinal de contas ninguém conhece ao certo se a inutilidade das modelos serve mesmo para alguma cosia.
Ainda faltavam dez minutos para a seis quando o Altenor, do andar de cima, passou. Ô rapaz, jogando paciência é? Cuidado viu Manuel, si você num fica isperto logo eles percebem e montam em cima de você, você acaba até fazendo serviço dus otro, ou de boy.
Manoel não disse nada, até porque não era preciso, só observou Altenor carregando pacotes de papel para a sala da copiadora, ele mesmo tinha virado um boy.
Pontualmente as seis, o Ricardo levantou a cabeça do monitor: Bora, toma umas geladas.
Manoel não consegue recusar cerveja, não consegue querer.
Ô Manu, se duas abelhas te picarem você morre, você sabe se um pica você agüenta?
Porra Ricardo que piada sem graça.
Manoel pensou, mas guardou para si, que as piadas deliciosamente péssimas do Ricardo fariam falta se parassem um dia de defecar em cabeças alheias.
Não foram longe, beberam ali perto mesmo, no bar do Reginaldo. Conversaram sobre o tempo, o feriado, jazz e sobre a sheila.
Já na quinta garrafa, Manoel mentalizou que a cerveja faria sim falta, muita.
Quando viu, sentada à mesa mais distante, sua ex, Beatriz. Não comentou com o Ricardo.
Cara, pra pega a Sheila é fácil, basta andar com a chave do carro na mão, falar cifras no celular, essas coisas. Disse o Ricardo.
Mas Manoel não estava prestando atenção, tinha seus olhos fixos na Bia, maldição, estava sentada com um barbudo feio que dói. Manoel sentiu uns socos no estomago, era o orgulho, birrento, ajoelhado disparando uns cruzados.
Sabia que não tinha nada a se fazer, mas sentia-se mal, ai pediu uma vodka.
Com o tempo foi melhorando, nada que a lembrança da Sheila não ajudasse a sanar. Passaram mais três garrafas arquitetando a índole da secretária.
Na quarta ida ao banheiro, Manoel reconheceu no canto do bar, a garçonete, do café da manhã. Que sorriu, ela sempre sorria, e foi feliz para o mictório, feliz por mijar mesmo, só por isso, sentindo por todo o corpo aquela sensação de que vale a pena viver no final das contas. E mijar, e beber, e ter o estômago surrado ao ver ex-namoradas e torcer para que as pombas defequem na cabeça dos barbudos que querem comê-Las.
Enquanto lavava as mãos, Manoel suspirou, há vida antes da morte. E pensou que esta faria alguma falta.
E tudo isso foi num só dia.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Um do Outro

Quanto provável, penso,
que dentro em breve
você se resuma a só um gosto leve,
agradável, posto no canto da boca.
Uma coisa pouca, linda,
que não se lembra,
nem se esquece
que não finda,
que não excede.
Você,


uma velha roupa minha
que ainda sim esquenta
mas que em mim não serve,
quem dera,
eu agora enfim pudesse
jogar fora.
Um tanto desagradável, tenso,
que dentro em breve,
talvez eu suma, como um deposto deve,
como vento estável que não se percebe
eu,


um brinco antigo que você não usa
que você não cede
que confusa você não pede
nem que fuja
nem que regresse.
Vinho que você não bebe
ou oferece
foto que olhar você recusa
mas pendura na cortiça bege
e não me tira
e não me perde
e que a cada hora inteira
mais poeira me devora.
Contanto, mundo tão afável, imenso,
ainda vira e mexe
por um segundo nos vemos, em tese,
no fundo do copo,
no fundo do poço,
mas, um segundo depois,
a gente vira o rosto
pois não mede o quanto inquiete
a saudade que sente,
um do outro
e nos forçamos, ainda em outra aurora
a ir mais uma vez embora.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Em todo caso, Antonieta.

Subiu então ao palco, e como sempre não houve aplausos ou comoção.
Atrás do balcão do bar, Oliveira ordenou que os autofalantes se pronunciassem e que a fumaça invadisse o pequeno circulo encarpetado, onde Antonieta já aguardava. Mão direita no poste, pé separados para empinar a bunda.
Houve um girar sincronizados de cabeças atentas daqueles que não pensavam no quanto o orçamento seria afetado.
Antonieta dançava, seu corpo parecia acompanhar a melodia, se contorcendo no contra-tempo. Mas antonieta não estava ali. Pensava que a gripe do seu bebê, Joaquim, já durava era tempo dimais, qui tinha que leva ele pro dotor.
Têm dias que alguém resolve por levar a mão ao corpo da dançarina e ai mais mãos entram em consenso. Mas qui droga, noite di azar. Vê-se um círculo de homens e garotos passando a mão pelo corpo escultural de Antonieta, como adorares de uma rara imagem divina de ouro.
De certa forma antonieta gosta até disso, era cumo si ela fosse uma diva qui nem a madonna, mas quando eles coloca a mão na buceta eles maxuca.
Foram seis minutos de muita mão para só dois peitos.

Antonieta pegou seu sutiã e desceu do palco. As mãos a seguiram. Quando alguém a puxou pelo braço.
Tomara que num seja um véiu bêbadu.
No começo ela não o reconheceu. Ele não disse nada enquanto passava o cartão, ela estranhou mas não era aconselhada a fazer perguntas. Subiram uma escadinha de engenharia complexa por trás do palco e chegaram a um corredor comprido e bem iluminado com algumas portas em seqüência. Antonieta se dirigiu ao Breno que estava sentado em uma cadeira de ferro no começo do corredor. Uma hora.

Antonieta fechou a porta atrás de si e levou um tapa poderoso.
- Sua vagabunda. Num botei fia puta nu mundo.
Nesse momento Antonieta o reconheceu, fazia cinco anos que ela não via seu pai, desde que fugira do interior para ter Joaquim.
- Falei proce num tê aquela merda daquele fio. - Vociferou o homem de cenho marcado e de barba mal-feita.
Antonieta recostou-se na parede e escorregou devagar, imaginando joaquim dormindo tranqüilo. Queria poder abraçá-lo.
- Vai, fica de quatro aqui na cama sua vagabunda de merda. Você dá o cu?
Em prantos, Antonieta fez que não com a cabeça, seu cabelo castanho pendia em direção ao travesseiro. Seu pai então tirou um revólver da cintura e abaixou as calças.
- Ah, sua puta de merda, você é puta, dá o cu sim, se não eu te mato.
Não houve escolha.
Enquanto seu pai lhe arrombava o cu, Antonieta queria poder cuspir em cada velha que lhe dissesse 'vai com deus', queria bater em todo o padre que lhe dissera um dia que deus era justo. Se deus existe, cobra por benção, e não da nota fiscal.
Sentia seu corpo formigar, e sua cabeça latejava, talvez pelo peso das lágrimas. Pensou em Joaquim, pensou que por mais que quisesse não poderia morrer. Mas também lembrou de que nada adiantaria dar a ele uma vida melhor que a dela, se outras pessoas tivessem que passar por tudo que ela estava passando.
A isperança morreu faz é tempo. E eu ainda continuo aqui. Sendo fodida e espancada pelo meu próprio pai.
Sentiu seu pai gozar dentro do seu corpo, e desabou no colchão. Seu pai apagou o cigarro na sua virilha.
De alguma forma, Antonieta sentia-se na única realidade. Sabia que a única coisa que existia era o nada, o nada e a merda. E conformou-se com isso. Viveria, não sabia muito o porque, não era pelo Joaquim, coitado, que se pudesse evitaria que ele vivesse nesse mundo, mas decidiu que continuaria sendo, em todo caso, Antonieta.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Berenice não mais

A repórter que surgira na tela poderia ter qualquer nome. Poderia ser Ana, Rebeca, Jussara ou Joana talvez. Mas não, se chamava Berenice.
Deve ser isso mesmo que o destino conhece por ironia. Como se Vilela precisasse desse tipo de coisa para não esquecê-la. Bastava ver no fim da tarde o sol acenar antes de se enfurnar atrás das montanhas ou ver no espelho que suas olheiras venciam a guerra contra seus olhos.
Berenice, Berenice, Berenice.
(Suspiro)
Mas, Berenice não mais.
A outra reportagem do jornal da madrugada era sobre intercâmbio, veja só, no Canadá, onde justamente Berenice deveria estar agora, se abraçando a fim de minimizar o frio, onde sua boca torta e linda talvez vaporize uma leve fumaça, onde os canadenses, tão gentis, lhe sorriem um 'Good night, Darling'.
(O rosto de Vilela se contorceu por conta própria)
Mas, Berenice não mais.
A impressão de que seu coração sussurrava 'Berenice, Berenice', cem vezes por minuto fez uma fagulha de descrença incendiar o orgulho de Vilela. Levantou-se e pôs-se a resgatar retratos da estante, um a um iam sendo jogados em uma caixa velha de papelão que se contorcia irritada. Jogou também o Chaplin de porcelana, os filmes do Godard, os livros do Marcuse, a escova de dente mais seca do que deveria estar, os recados na geladeira.
Por fim, arremessou-se também ele à caixa.
Onde permaneceu desajeitado por alguns instantes. Como se fosse possível jogar fora apenas à parte que pertencera a Berenice.
(Vilela não permitiu que a lágrima chegasse ao canto da boca)
Berenice não, mas...
Perguntava-se, encarando um Chaplin amuado, como que uma jovem tão frágil e inocente poderia ter conseguido deixar seus rastros por tudo quanto tenha passado, como ela teria feito para jorrar seu perfume em todas as brisas matinais, e ainda tatuar seu sorriso em suas duas pálpebras sem que ele tenha percebido.
Quando o telefone tocou.
- Vi? É a Berenice. Você não responde as minhas ligações. Ta tudo bem, querido? ... Você não vai dizer nada? ... Ta, se você prefere assim. Sinto sua falta. Acho que vou vol - Aqui Vilela desligou.
Vilela se ajeitou novamente no sofá, viu que o jornal chegara ao fim e entrou em um leve regozijo reconfortante. Afinal de contas, Berenice não mais.
Ainda antes de adormecer teve tempo de sorrir um "Good night, Darling".

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Dos Laços Fracos

Estamos sempre a tempo de chegar atrasados. Ao relento, trancados tão dentro da insensatez.
Se agarrando ao sol cortês que nos mastiga a tez.
Eternamente aprisionados aos caprichos da semana que vem.
Vá e deixe que o frio te abrace outra vez e quem sabe não lhe escape talvez uma incerta altivez.
Nunca mesmo saberemos quanta angustia cabe em um desleixo e quanto encanto sabe que se desfez.

Olha que eu sou bem menos do que profetam os prospectos. E de certo se quer alcanço todos os méritos que criei.
Sou antes, fugaz demais pro meu gosto. E o papel onde desenhei amanhãs não suportaria a primeira chuva do mês.
Deixe-me ser que te deixo meu porém, pois nem sei quantos ses cabem num beijo também.
Deixo-te meu agora e fico devendo mais além.
Todo o futuro que sobra se torna inseguro a cada hora, a cada medo que se tem.
Ah, toda flor que desabrocha perfuma a não se sabe quem.
Todo espinho que te amola, não incomoda a mais ninguém.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Sol com poucas nuvens

Se ao menos nossas almas nuas
rosas calmas e mútuas
não fossem tão leves quanto um sorriso
e o sorriso de tão breve siso.
Não posso dizer quais luas são suas
ou quanto querer será preciso
assim, mais próximos que um suspiro.

Antes fossem nossos, os nossos destinos
e houvesse ainda alguma razão
nesses ventos clandestinos
sem direção
nesses tempos que nascem extintos
por nos deixarem sempre, mais próximos que uma ilusão.

Vê que o céu da sua boca
carrega o eco da véspera
o cansaço da áspera espera
do resto desta vida oca
e vem pra perto,
vamos mais próximos que um abraço.

Diz que sente nossas almas gentis
mais próximas que uma feliz insensatez
mas tão sempre presas pelos quadris
as desastrosas nesgas de talvez.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Enfim

Borboleta inda há de pousar
se ajeitar linda em teu braço
com meu compasso meio violeta
vai lhe chamar a rodar
por todo o planeta
até me econtrar,
enfim.


Pra ela te achar
vai ser moleza,
vai o ar fazer a gentileza
de soprar seu perfume
e como de costume
ela vai rodar
pensando te abraçar
até lhe beijar
enfim.


Ela vai lhe contar
que eu ponho à mesa
o seu lugar no jantar
tentando surpresa,
e vai lhe sussurar
com que tristeza
volto a rodar
pensando em voltar a sonhar
enfim.


Você vai lembrar,
tenho certeza
da beleza que tinhámos qui,
com que leveza seguiamos e
desculpe a franqueza
mas você vai rodar
sair à francesa
até nos juntar
enfim.


Você vai pensar
que foi besteira deixar
a delicadeza de lado
e seu corpo cansado
cheio de fraqueza, coitado,
vai pedir pra rodar
atrás do rapaz que tão bem te faz,
enfim.


Haja o que houver,
caso a veja chegar
tente não desperdiçar
um minuto sequer,
lhe de uma gorjeta
e experimente a proeza
de a rodar o quanto puder
com o coração a bater na maleta
que por mais distante que esteja
vai a vida lhe trazer até mim,
enfim.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Tanto mesmo melhor

Ai a gente sai andando por ai, olhando bem lá pra frente, tropeçando em esperanças, inventando semelhanças, entre o sabiá e o Bem-te-vi.
Sai colecionando cada desculpa, redesenhando o horizonte pra ver quem se ocupa
do monte de coisa maluca que a gente conta pro coração.
Sai encarando não como talvez, levando mordida, safanão, palavra indevida e pouco cortês, aguentando o dedo na ferida no medo de quem a fez.
Ai então, todo um futuro cabe na memória, em um inseguro 'quem sabe', uma história sem função, uma solidão, um outro rumo, um desabe.
Ai a dor nos prepara para essa vida esfarrapada, com tanta cara a tapa, com tanta ilusão,
quando não rara ela escapa, escorre pela mão,
um dia cai na seara errada e cria no nada uma ficção.
Ai a sempre-viva se suicida e a gente perde a razão. Sai plantando expectativa, sai colhendo frustração.
Sai buscando paz, prendendo a respiração.
Mas tanto mesmo melhor deixar a esperança para trás, e seguir em qualquer direção
levar uma ou duas lembranças estúpidas de uma ingratidão, só para cócegas futuras, só para o violão,
levar a certeza da dúvida, a nossa versão
a pálpebra úmida e nada mais não.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

4:30

Na calçada acinzentada da praça, algumas dezenas de pombos tristes. Balançando sincronizados seus troncos. Como sempre fizeram, como sempre farão.
No fundo, uma invisível sirene aflita pede passagem.
Em consenso nos bares, copos e lábios cansados se beijam em um amor indefectível ao som de uma tediosa partida de futebol, enquanto o sol vai escorregando nos prédios brancos, um sol cansado do fim de outono, daqueles que se quer ferem as pálpebras.
Caminhado às margens dos carros amontoados estão homens e mulheres, jovens e estafados senhores, pulsando sincronizados seus corações, buscando nas profundezas das suas ilusões um lugar seguro e inodoro para guardar suas esguias esperanças.
Como sempre fizeram, como sempre farão.

terça-feira, 28 de abril de 2009

A medida do impossível

As coisas não deveriam ter acontecido, necessariamente, desta forma.
Foi o que pensou o jovem rapaz abotoando o primeiro dos botões do seu sobretudo branco. A grande cidade abaixo se resumia em centenas de luzes amenas. Algumas em movimento. No fundo do terraço do alto prédio a porta de ferro gemeu quando se dobrou. Por ela, um homem baixinho e velho se precipitou, mancando ocasionalmente, tinha uma grande barba grisalha e um sorriso em potencial. De dentro do bolso do cinza e surrado paletó tirou um relógio prateado. Eram oito. Logo atrás dele, uma pequena garota de cabelos aparentemente intermináveis caminhava temerosamente.
Os olhos do homem cruzaram ao canto com os olhos de uma bonita moça, que jazia amarrada e amordaçada. Tinha um cabelo curto e bastante negro que emoldurava uma feição irritadiça, como uma incógnita. Não houve palavras.
Enquanto o senhor acendia seu cachimbo que se avermelhava generosamente, o jovem demonstrava algum desconforto com a situação, braços cruzados para que parassem quietos, e uns leves chutes no parapeito. A garotinha se apoiava na perna do senhor, se escondendo ingenuamente.
- Você achou mesmo que não te encontraríamos, filho? - As palavras saiam defumadas.
- Eu não sei, no fundo achei que pudesse convencê-los.
- De?
- De que o mundo não precisa assim de tanta dor.
Aqui a conversa teve uma pausa, levemente desapontado o Acaso retirou o cachimbo da boca e repousou seus olhos irrequietos na cidade antes de continuar.
- Olhe, Amor - disse deslizando o cachimbo pelo horizonte - o que você vê?
- Eu vejo desesperança pai. Milhares de ilusões sendo alimentadas generosamente e porquê? - O jovem Amor não conseguia conter ás lágrimas. Eram lágrimas de raivas por elas mesmas.
O Acaso soltou uma breve e leve gargalhada.
- Desesperança é uma palavra tão engraçada quanto tola, filho, significa a falta de esperança enquanto na verdade traduz a esperança fraca de se ainda ter esperança.
O amor tentou se manter irredutível frente a retórica de seu pai, mas admitia para si mesmo ser um trabalho difícil. O acaso percebeu e soltou um sorriso quase imperceptível.
- Filho, se você amordaçar a dor uma outra vez eu serei obrigado a tomar atitudes enérgicas.
- Mas pai...
- Veja essas pessoas filho. - Desta vez as palavras tinha algum peso – Elas precisam tanto da dor quanto de você. Desde que você a escondeu ninguém mais aprendeu nada, ninguém mais quis absolutamente mais nada. É essa vida que você quer dar a elas? Será que eu terei de castigar até que você aprenda essas malditas verdades?
- Eu não sei se acredito nessas coisas, pai.
O acaso conteve a ira fechando os olhos. Depois olhou novamente o relógio. Eram dez e meia. Então se dirigiu para a garotinha. "Vamos Sina, solte sua prima". E começou a caminhar de volta em direção a porta, mancando vez com uma, vez com a outra perna. Quando o Amor tentou resmungar algo ao acaso, ele apenas levantou o cachimbo sem se virar, pedindo que o Amor calasse um pouco sua boca de promessas.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Nozes

Pegou, me acusou de engenharia social
de artimanha, de carnaval
disse que dei na vista
que sou calculista
que pegou meio mal.
Admite?

Gritou que sou falsário
carta fora do baralho
que é conto do vigário
se a pista eu espalho
pra falatório geral.

Mas peço que você me visite,
que veja o que em mim existe
o que minha alma deseja
o que meu olho transmite.

Ainda resta um pouco de razão
nesse tão louco coração
que ainda resiste.
Ele vai pulsando mais por falta de opção,
por birra, por vontade de revide,
nem espirra bancando o valentão,
que não aceita mais palpite.

Eu só queria que você sorrisse,
só mesmo pela alegria de sorrir
meio por besteira, mesmo por tolice
até com a carteira vazia,
acredite, acredite.

Adoraria que me desejasse bom dia
e depois até voltasse a dormir
mas queria que ficasse e que tentasse
meio por magia, mesmo por crendice,
e assim pintasse, em nós dois, a harmonia
pois quem foi que disse
que se chama paixonite
quem disse que é pura teimosia,
nos cogite, nos cogite.

A gente tem mania de querer mais que devia,
de morrer na fantasia só pra ver que som emite,
de pagar qualquer quantia, de querer sonhar poesia
até que a felicidade se precipite.

Depois, é mesmo crença
Levando a dois sempre compensa
pra que tudo facilite, meio por covardia
mesmo por doença, por ideologia
pela boa companhia
só pela presença.
Não hesite!
Não hesite.

Passaria o velho tempo e a gente na calmaria
vamos vivendo, pra chegar lá no final
contente com tudo e o mundo, sem perder nem um segundo
andando sempre juntos sem plano e sem limite
que isso ninguém tira e nem se quer supera
sempre lado a lado, sem mentira e sem pressa
dois despreocupados pois quem nada espera
vive o inesperado que pintamos com cautela.

Não nos evite, não nos evite.

Ah, eu disse que minha intenção
era que se dividisse um pouco de atenção
que se permitisse ainda a doidice
de por que não
ainda se sorrisse sem razão.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Triz

Hoje a lua acordou vermelha
olhando de esguelha
meu mundo chorar

Meu pranto hoje espelha
toda sua lua cheia
que recua além-mar

Vai minh'alma e se ajoelha
diz quem te norteia
polua meu sonhar

Explica por que se fez meia
porque se esperneia
nua a boiar

Vai e conta pra lua
o que te esfaqueia
que tudo que se quis
foi ser feliz na areia,
você e a sereia
que não quis te escutar.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Da gente valente

Vieram, madrugada a fora, na ponta da sola, ninguém os ouviu. Levaram canário embora, a passarada não se consola com tamanho ardíl. Querem que canário cante diante deste cenário vil, dessa gaiola tão arrogante, desse tempo hostil.
Pela esmola do Tio Gentil prenderam a passarola, a levaram ao covil, por um silvo retumbante, alto o bastante pra ecoar no infinito,um grito mais bonito, aflito e febril. Querem Canário galante e servil ante ao fuzil e o braço forte. Querem que o mundo se encante, do sul ao norte, com canário varonil, estonteante e senil.
Mas não adianta, ele se recusa, Canário preso não canta, luta contra seu atacante imbecil, vai, bica, berra e morde seu senhoril cabrestante que lhe adora a própria morte, que lhe alimenta mediante a toda sorte do Brasil.

- À todas as vozes que não se ouvem mais.
- Esta poesia faz parte do meu primeiro romance (em fase de finalização), AME-O OU DEIXE-O. Para deixar claro, ele se passa na ditadura.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Treze Gatos

Não havia música, a não ser pelo canto do andar do relógio.
Entre os cabelos estavam dez dedos, dedos com unhas quadradas.
- Ouça o que o doutor diz, Jorge.
- Eu não estou louco Priscila. Eu não sou louco.
- Você sofre de um tipo raro de esquizofrenia, um caso muito específico, você ouve, vê e sente coisas que na verdade, não existem.
- Priscila, você já viu a Júlia, você conhece ela, fala pra ele.
- Jorge, ninguém a viu, ela não existe, sinto muito.
- Pergunta para o Cristiano, ele sempre a deixa subir sem interfonar.
- Jorge, é natural que você esteja assustado, mas já temos como melhorar bastante sua qualidade de vida.
- Que vida, doutor, que vida?
Jorge sonhava com duas escovas molhadas na pia do banheiro, repousando felizes. Imaginava uma cama desarrumada, ainda quente, contando calada a noite em claro. Eram desejos pendurados na parede, a óleo.
A Júlia, em algum lugar, sorria um triângulo branco.
- Jorge, você nem percebe, mas é você que joga a comida dos seus gatos no lixo e depois pensa que eles comeram, eles também não existem.
- Meus gatos... não existem. - essas palavras saíram num sopro - Pri, veja meu braço, eu e a Julia nos juramos amor eterno juntado os braços cortados. - Jorge arregaçou a manga direita.
- Veja seu outro braço querido. - Priscila não conteve mais o choro, havia se perdido a última esperança de que tudo fosse um mal entendido.
- Eu gostaria de fazer alguns exames Jorge, você me acompanha até meu consultório.
- É claro que ele vai, doutor.
Na fresta do quarto, estava Julia. Seu cabelo preto e curto balançou quando ela se agachou para pegar o maço de cigarros. Julia usava só uma grande camisa que fora de Jorge deixando à mostra suas longas pernas brancas como leite. Julia acendeu o cigarro e piscou para a sala. Jorge sorriu.
- Eu não vou.
- Mas Jorge, você não está bem.
- Nunca estive melhor, saiam da minha casa agora.
- Você está fora da realidade querido, por favor, nos ouça.
- Fora, imediatamente! - Urrou Jorge já de pé, indo abrir a porta marrom.
- Pelo amor de deus Jorginho, só queremos te ajudar. - essas palavras se esquivavam dos soluços.
- Fora Priscila. A minha realidade é o que eu prefiro acreditar.
A porta se fechou em um estrondo de adeus. Fernão, o gato malhado, esfregou-se na perna de Jorge, depois deitou esticando as patas pretas. Jorge agachou e lhe afagou a barriga. Julia se recostou no batente do quarto, segurando a cinzas que caiam com a mão esquerda. Jorge a admirou por um momento, até o jeito que ela coçava uma perna com a outra o deixava feliz.
- Eu, Jorginho, tenho certeza que você existe, viu?

sexta-feira, 27 de março de 2009

Projeto Nazareno

Caminhava sorrateiramente, o mais depressa que suas pernas relutantes conseguiam lhe servir. Através do ramos das oliveiras o luar iluminava de quando em quando um rosto apreensivo e preocupado. Afinal era tudo verdade. Era um homem com uma túnica branca, era uma noite que já tinha se vivido antes.
Enfim, avistou a gruta. Exatamente como havia imaginado tantas vezes, com uma grande rocha redonda fechando o túmulo. Parou com as pernas ameaçando ceder, arqueou e apoiou as mãos inquietas nos joelhos. Lembrou de que era um simples padre de uma cidadezinha esquecida até por deus e lembrou-se de quando Madalena chegou, era dezembro de 2030. Imaginou que ela fosse uma louca qualquer, e quem não a acharia como tal. Dizendo que ele precisava lhe ouvir, que ele deveria voltar no tempo. Ah, como ele poderia sonhar com uma coisa dessas.
Relutou. O peso do medo era insuportável. Houve um farfalhar na vegetação. Houve uma taquicardia. Era uma mulher de cabelos cacheados com um sorriso no rosto, sorriso de satisfação.
- Padre.
- Madalena?
- Fico feliz que tenha conseguido viajar sem efeitos colaterais.
Ele pôs a mão na cabeça latejante que parecia não caber no crânio e se perguntou o que ela entenderia por efeitos colaterais.
- Mas o que você faz aqui, Mada?
- Não temos tempo para conversas, Padre, tome.
Madalena tirou uma bolsa das costas que ele não havia notado. Era uma bolsa moderna que certamente também tinha recuado milênios.
- Aqui tem uma pá, explosivos, uma bíblia, e outras coisas que você vai precisar. Lembre-se, você não pode falhar, nem fazer qualquer coisa que ele não tenha feito. Bem, ele é você de qualquer maneira. E não se esqueça de que depois que tudo estiver terminado você precisa voltar mais alguns anos, precisa me procurar e insistir que fala a verdade. Diga que conhece meu tio José, que eu devo acreditar em você. Lembre-se que se você não me encontrar eu não irei até você no futuro. Agora se apresse, logo Paulo estará aqui. – A cabeça dela deitou-se levemente como fizera dantes, quando lhe chamava a atenção gentilmente. – Vá, eu vigio.
O homem pegou a bolsa e respirou profundamente. Quis beijá-la, mas o futuro ou o passado da humanidade como ele conhecia estava em jogo. Empurrar a rocha foi mais fácil do que imaginara. Procurou na bolsa por uma lanterna, que caiu no chão, foi preciso umas batidas para que ela funcionasse. “Acho que não acharei pilhas para comprar”. O círculo de luz deslumbrou uma parede bem branca até chegar num embrulho branco. Era claramente um corpo.
Uma lanterna chacoalhando.
Foram os dois passos mais longos da sua vida. Se demorasse para fazer ele não o faria, então levou a mão o mais rápido que pôde, e levantou o pano.
Lá estava. Era um morto com uma coroa de espinhos. Era ele mesmo morto com uma coroa de espinhos. No futuro, ou no passado. Era Jesus.
Arrastou seu próprio corpo sem vida para fora da gruta onde Madalena lhe sorriu. E começou a enterrar-se repassando todos os passos do plano, deveria criar um terremoto, deveria maquiar as mãos e os pés, deveria acreditar.A cada golpe na terra árida, a fé de Jesus começou a voltar. Mesmo que tudo o que ele tinha acreditado até então tinha se esvaído pelas mãos, ele sabia que existia algo maior. Talvez fosse mesmo uma espécie de deus que tenha lhe dado essa missão. Ser Jesus Cristo, tantas e tantas vezes. E imaginou se não poderia, ele tão frágil, fazer algo diferente do que já tenha feito, para melhorar um pouco o mundo que vivera.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Lantejoulas

A você não peço que me especule,
mas antes que me prove.
Não quero que você me calcule
sem saber o que me move.
Não me enfeite, nem se iluda
pois sei bem que a paixão busca
não um amanhã mas uma ajuda
a um coração que coitado pulsa,
e pergunta se alguém o escuta
do outro lado do presente temporão.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Todo o nó do contra-fluxo. (Fim da trilogia)

Cristiano subiu apressado no onibus 227, eram quase sete. Haviam ali umas cento e cinquenta pessoas, que decididamente não respiravam ao mesmo tempo. Trezentos pulmões cheios não caberiam ali. O dia que não estava satisfeito com sua desgraça mandou uma chuva, bem um temporal. Janelas se fechavam. Mais de um cento de pessoas conzinhando no coletivo. Depois de muito esforço, Cristiano conseguiu chegar a catraca onde descobriu que o mundo gostava de tirrar um sarro. A tarifa tinha aumentado. Lembrou mesmo que tinha visto o vereador falando na tv: “A população pode ficar tranquila, são apenas trinta centavos”. Cristiano tinha o dinheiro contado. Cristiano quis ter trinta centavos, quis não ter acordado nesse dia, quis como quem quer tudo menos a sua própria vida.
- Eu não tenho nada com isso. Motorista, pára ai que esse homem vai descer.

Vanderlei ainda pode sentir seu corpo ser jogado ao chão. Pedras salgadas. Vanderlei sempre quis ser policial. Zelar pela população. Se lembrou do seu primeiro dia. Foram estourar um QG do tráfico na favela. Pegaram dez mil reais, e um terço da droga. Deixaram os traficantes fugir. Deram mil reais para cada oficial e chamaram um programa sensacionalista para prestar contas. Vanderlei não queria aceitar esse dinheiro, não era justo. Não queria fazer parte do esquema.
-Você não tem que querer, depois do que você viu, você já está dentro. E se eu fosse você, não pediria para sair ou denunciaria.
Era pegar ou morrer. Se corromper e viver um pouco melhor, ou não viver. E assim, vanderlei morreu.

Dona Ivonilda perdeu um filho pro traficante. Ela não queria denunciar onde o ex-marido estava escondido. Mataram o filho. E Cristiano lembrava muito o garoto. Ela tinha trinta centavos, mas seria um pão a menos para as filhas do novo marido. Que nesse instante estavam em baixo da cama, se protegendo do segundo tiroteio de hoje.
- Obrigado dona, Deus lhe pague.

Ivonete não podia usar o posto e saúde da sua comunidade pois ficava em uma área de traficantes rivais. Juntou todo o dinheiro que tinha para pagar um taxi. Precisava fazer um ultra-som. Estava decidida a ter esse filho, mesmo que ela não soubesse de quem era. Mês passado a jogaram na prisão por supostamente ter roubado um celular. Uma prisão masculina. Era estuprada seis vezes por dia. Quando foi reclamar dizendo que era mulher, os carcereiros corataram seu cabelo. Depois ela até gostou do corte. O taxi parou de repente. Na frente uma mulher sangrava na altura do ombro e empunhava uma pistola.
- Me leve até sapopemba, preciso encontra o amor da minha vida.

Havia fumaça. Pneus em chamas. Cristiano logo viu que era um protesto quando desceu do onibus. Lhe disseram que era porque tinham matado o filho da dona Zenaide. Ele sabia que o moleque não era bandido. Mas quis que aquilo não estivesse acontecendo. Duas viaturas dobraram a esquina. Esquadrão especial. Houve dezenas de corações em pane.

O taxi parou. Lucrécia desceu ainda com a arma, afinal tinha visto Cristiano conversando com uma senhora. Lhe deu um abraço por trás.

Roger viu uma mulher armada prendendo um refém por trás. Ele estava puto por ter sido chamado no carnaval. Atirou. Matou o refém, atirou, matou a mulher. “Esses vagabundos do caralho.”

Ivonete tremeu e sentiu um líquido quente e viscoso escorrer pelas suas pernas, tinha perdido o bebê.

Lucrécia nunca tinha realizado um sonho, morrer com o amor da sua vida, juntos. Cristiano não quis mais nada, quis não querer mais nada, então queria alguma coisa. Cairam abraçados com pupilas dilatadas e roupas avermelhadas.

Os pobres culpam os ricos. Os ricos culpam o governo. O Governo culpa os pobres que desta vez culpam o dêmonio, que culpa deus. Que não culpa ninguém. Está muito ocupado assistindo big brother.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Todos os sonhos de Lucrécia Videira

Lucrécia nunca teve sonhos.
Nunca usou um batom, nunca soube a utilidade de um fio dental, nunca comeu filé mignon, nunca teve natal. Nunca teve mãe.
Pai ela teve. Natanael, era um homem que pra onde ia carregava uma carabina e um sorriso, mas o sorriso ele não sabia usar.
Moravam pra lá de campina grande, e lá eles acreditam ainda em justiça. Certa vez pra fazer a honra da afilhada, Natanael foi tirar satisfações.
Matou o cabra errado.
Fugiram pra São Paulo.
Um homem de sorriso torto e oito meninas esfomeadas.
Aqui a justiça já não existia e Natanel teve de vender suas filhas. Uma a uma.
Um cabra pedindo perdão a padi ciço.
Lucrécia custou duzentos reais.
Nunca valera tanto. Seu comprador era um homem quadrado, de bigode fino. Vanderlei Siqueira.
Vanderlei para onde ia carregava uma nota de cem e seu distintivo de investigador, mas o dinheiro ele não mostrava toda hora.
Lucrécia nunca trabalhara tanto. Nunca tinha sido estuprada. Lucrécia nunca tinha tido um quarto só pra ela.
Tão sortuda a menina orfã. Nasceu na melhor época, quando a senzala fica bem pertinho do lugar do labor. Na verdade fica a um passo, ali atrás da área de serviço.
Era um homem armado, era um homem que conseguia o que queria. Era uma garota de dezesseis anos que nunca quis nada. No começo lucrécia gritava e reclamava.
Sem emitir som, claro.
Depois se acostumou. Era melhor assim, afinal lu nunca tinha comido bisteca. Ela adorava bisteca. O preço era até barato.
Dia desses, voltando da padaria com oito pães e peito de peru, lucrécia parou por um instante na portaria.
Ela nunca tinha visto dentes que convidam, nunca tinha visto sombrancelhas de eterno levantar, lucrécia nunca tinha sonhado:
Houve uma casa de barro. Houve um sol do tamanho do céu. Houveram oito filhas, correndo aos berros.
- Oi, moça, meu nome é Cristiano, mas me chamam de Baiano. - Houve um sorriso completo - Mas eu sou de pernambuco, esse pessoal daqui num sabe muito bem das coisas lá de cima, você é do nordeste também, não é não?
Lucrécia quis como quem quer uma só coisa na vida.
Liberdade.
Se encontravam sempre que podiam. Na garagem, na escada de emergência, nos sonhos. Lucrécia estava convicta de que a vida, ás vezes, tem dessas coisas. Com sorrisos azuis nos muros.
Os sonhos foram se entrelaçando até virar um só. Maior. Iriam pra petrolina juntos. Teriam oito filhas e um cabra homem. E lucrécia foi vivendo o futuro no presente. Mais do que se suporta. Andava avoada e esquecida de tudo.
Esqueceu de tomar a pilulinha que Vanderlei tanto insistia pra ela não esquecer, e ele viu a cartela cheia.
Houve chutes e pontapés, certeiros na barriga.
- Sua vagabunda! Foi esse porteiro de merda que colocou coisas na sua cabeça? Você quer engravidar pra levar a vida numa boa? Sua puta. Sua desgraçada.
Lucrécia podia aguentar chutes e pontapés, mas não conseguiu deixar que Vanderlei falasse mal do amor da sua vida. Não, não o Baiano.
Pernas tremiam mas funcionvam, tortas. Lucrécia nunca tinha tossido sangue.
- Você vai pagar por tudo isso, monstro.
Hove lábios trêmulos e lágrimas saltitantes.
- Quem você pensa que é, sua rampeira.
Houve um momento de lucidez:
- Eu sou a esperança.
Lucrécia nunca tinha desmaiado. Acordou no carro. Ela quis perdir perdão ao cristiano quando o viu pela janela, quis como quem quer uma última coisa. Mas não conseguiu. Estava presa no inferno.
No matagal, lucrécia cai. Nunca tinha tomado um tiro. Era quente, e não doía não.
- Maldita piranha do caralho ... Alô, oi bem, estou aqui falando com o delegado sim - uma flanelinha no cano fumegante - sim, sim, eu passo no mercado. - uma arma no chão. - também te amo querida.
Lucrécia nunca tinha insistido. Mas havia um futuro, em algum lugar de pernambuco havia sorrisos geminados.
Ela nunca tinha atirado. Era difícil.
Pedaços de vidro despencam até o pedregulho. Uma buzina reclama da cabeça no volante.
Lucrécia nunca tinha dirigido um carro.
- Espere por mim Cristiano, espere por mim.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Toda a fé de Cristiano Cunha

Cristiano estava convicto que Lucrécia era o amor da sua vida.

Afinal,é sempre mesmo facil se apaixonar por quem conhecemos pouco.

Tudo o que se via de dentro da pequena cabine dos porteiros era um portão imponente azul e um pouquinho da calçada e da rua. E ali havia um dia colorido. Um dia que sorria.
Sorria por que Lucrécia que trabalhava no vinte e cinco tinha arranjado um tempinho. Sorria por que era melhor sorrir.

O Rádio sussurrava baixinho Chico Buarque.
O monitor de tv falava a situação nos portões do edifício, alterando o local a cada cinco segundos. Sem, é claro, se dar ao trabalho de mostrar alguma cor.
Crianças corriam no playground. Aos berros.
Junto delas foguetes e naves espaciais.
Cristiano sonhou com alguns filhos.
- De novo essa mania boba, Baiano? - Lhe perguntou Chico Buarque.

Toda vez que Cristiano pressionava o interruptor o portão azul dava um berro metálico de stress antes de dar passagem. Agora, passando por ele, está o seo Paulo do quarenta e um. E uma mulher jovem, vestida de sexo.
Os olhos de Cristiano discutiram um com o outro. Não sabiam se despiam-na ali mesmo ou se fotografavam para mais tarde.
Cristiano quis tê-la. Quis que ela o quisesse. Quis, mas como lhe era direito, só quis como quem não quer nada.
- Baiano. - O cumprimentou seo Paulo, piscando de canto. Cristiano rimou a piscadela.
O porteiro e seo Paulo tinham um acordo. Um acordo que continuaria vigente se, e somente se, Cristiano continuasse a fazer vista grossa para as amantes de Paulo. E esse acordo era sempre selado com uma piscadela.
Uma piscadela de poder. Uma piscadela que calava uma boca.
Por muito pouco.

Cristiano pediu a deus um pouquinho de poder.
Pela Lu, talvez.
Quem sabe? - Pensou.
Cristiano quis que Lucrécia lhe sussurrasse Chico Buarque.
Mas lu estava atrasada.
Como sempre.

No elevador Paulo e a jovem misturam os corpos enquanto Cristiano assiste pelo monitor em preto e branco. Mãos vencem roupas, bocas e orelhas se cumprimentam. Cristiano quis ser o Paulo.
Cristiano não quis imaginar que a jovem era a Lucrécia.
Houve um aumento na força gravidade.
Chico Buarque e Lucrécia se misturavam no elevador.
Cristiano quis esquecer, quis esquecer...

Buzinas repentinas e repetidas. Daquelas que rompem devaneios, daquelas que gritam palavrões.
Havia um carro esportivo vermelho de dois donos estacionado em frente ao portão que dava para o túnel escuro da garagem. Um dos donos era Vanderlei do vinte e cinco, o outro era o sonho de Cristiano.
O porteiro saiu devagar e foi até a janela, que se abaixou automaticamente sem travar ou emperrar.
- Baiano, eu não pedi para você avisar a minha senhora de que eu não estaria em casa hoje a tarde? Então porquê você não avisou? Você é idiota baiano? Você tem alguma doença mental? Porque se tiver você não pode trabalhar aqui. Aliás vou ver com o síndico se você ainda pode mesmo continuar a trabalhar aqui.
Impreterivelmente seo Vanderlei tinha que parar algumas vezes no meio da frase para respirar e era nesses buracos que Cristiano cuspia um "Sim, Senhor" ou um "não, senhor.
Que não eram respostas, pois também não tinha havido perguntas.

No banco do carona:
Lucrécia com o vestido vermelho decotado que Cristiano adora.
Olhos que não olham para lugar algum.

No peito de Cristiano:
Nada.

Não era possível acreditar. Lu tinha marcado com ele e agora estava no carro do Vanderlei? Cristiano buscou algumas desculpas na sua coleção de que ele tanto se orgulha.
Cristiano quis que ela apenas estivesse indo com ele ao mercado.
Quis até que talvez ela estivesse passando mal.
Quis que não fosse ela.
Quis como se bastasse querer.

- Estamos entendidos Baiano? - Houve um grito firme. Exarcebado com têmporas Dilatadas. Baiano não respondeu. O ponteiro do velocímetro dançou feliz, como se esperasse por esse momento. Os pneus reclamaram um pouco, e o carro sumiu pela direita.

Cristiano visitava sonhos antigos.
Na tela triste da tv Chico Buarque atirava em Lucrécia.
- De novo essa mania boba, Chico? - Perguntou Cristiano.
Cristiano agora separava algumas expectativas e as envolvia em jornais.
Jornais que estalavam ao dobrar. Juntou tudo em uma caixa onde se lia frágil.
Cristiano era um dia que chovia.
Chovia porque era o que se devia fazer.
E começou a fazer as contas, de que se perdesse mesmo este emprego, quanto tempo ele demoraria a voltar a sua terra natal:

Pernambuco.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bitola

Eu não gosto de me apaixonar por você;
Foi o que pensou. Preso pela força esmagadora das circunstâncias.
Havia dois pares de lábios distantes. Havia uma folha, seca e impotente, à mercê do vento.
Ela tinha cabelos desiguais. Da cor da manhã.
Era um silêncio ansioso, como pavio em chama, um silêncio daqueles que precisam ser quebrados, aqueles com as mãos trêmulas. O sol estafado espiava por trás do horizonte:
- Você me entende, não é? - disse a moça.
- Claro.
- Sinto muito. Muito mesmo. - O ‘mesmo’ sempre tenta dar alguma credibilidade a oração. Mas não funcionou dessa vez. Mesmo.
Quatro olhos tensos se envergavam, encharcando-se.
Entrelaçaram-se em um abraço, que o rapaz sabia, duraria muito menos do que poderiam agüentar.
- A gente se fala. - disse as costas da moça, as palavras caíram no chão, vomitadas, e ficaram ali quietinhas de frio.
Cabelos de aurora cheirando a todo um passado.
Ele sabia que ela voltaria sim, de fato. Mas sabia também que ela teria uma voz diferente. Rouca talvez, curva. Uma voz nova.
Quando outra fosse quem ela ainda é agora.
Com uma cara de ponto final ela fez que sorriu. Daqueles sorrisos que mostram muitos dentes e nenhuma esperança.
E caminhou sem dó.
A cada passo um coração pulsava. Sem saber mesmo o porque.
Eram almas desafinando. Com o cello zombando no contratempo.
Enfim, ela dobra a esquina. Como fizera tantas vezes. Antes de ser esta. Quando era aquela que tinha nome de flor, ou quando lembrava muito aquela atriz. Quando era outra que ocupava o trono.
Ele a esquadrinhou devagar, uma última vez.
O sol contristou-se, queria poder ajudar carregando um pouco a saudade verde que o jovem levava nas costas. Mas não era possível.
Obtuso de dor, o garoto pensou em correr até escapar dele mesmo. Mas ficou quieto por um instante. Um instante breve de mundo cru. Vermelho sangue. Engraçado como nesses momentos vemos a vida sem lentes, nem maior, nem menor, vemos a vida como ela realmente é. Uma moldura. Vazia. Passaram alguns carros, para um lado e para o outro. O letreiro néon tinha letras vivas que se reorganizavam até formar o nome da menina. Que também dirigia todos os carros, ria em duas mesas do bar, e mastigava um chiclete, no balcão.
Houve uma nesga de tristeza.
Era tarde demais para desculpas.
O rapaz se pôs a andar, pensando em perguntar à vodka se ela sabia onde estaria seu novo velho amor. Se ela sabia como a amada chamaria dessa vez e se ela se importaria de ser uma pessoa que tantas já foram. Aquela pessoa que esboçamos tanto sobre as outras, que projetamos quando éramos menor, na expectativa juvenil.
Ouviu-se uma frase de três palavras. Em sonho.
Em uma voz rouca, um pouco curva, não muito.
O ar tinha gosto de futuro. Agridoce. Algumas lágrimas faziam-lhe cócegas.
Ele imaginou que tinha se desprendido de tudo que lhe sustentava até então.
A noite vinha vestida com seu longo preto e empurrava o sol que em uma última olhada de esguelha ainda pôde ver o rapaz virar uma folha seca.
E torceu mesmo para que parasse de ventar um pouco.
Logo.

- Em memória de Natália Rici, que tanto amei.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Lá fora, a noite chorou.

A conversa fora interrompida por uma ira súbita do lado de lá da linha.
Algumas palavras acabaram saindo mais pesadas do que de costume, poucas gramas mais leve do que o insuportável. Eram palavras com nervos duros, daquelas que mastigamos por um tempo já sabendo que não conseguiremos mesmo engolir.
Houve um silêncio fosco.
Você reteve o vômito e acendeu um cigarro. Duas labaredas de fumaça escorregaram pelo seu nariz simpático, deram duas voltas em torno de si e atravessaram a janela aberta.
Você só conseguiu imaginar um ciúme descabido, um receio simples que têm aqueles que precisam sempre sentir a posse, senti-la como uma maquiagem. Não havia explicação mais sensata, definitivamente.
Então ta bom, beijo.
Outro.

O fone voltou ao gancho nesse instante.
Foi o vento que estapeou o seu rosto. Voaram algumas fagulhas de respeito.
A paixão ouvira toda a conversa, insegura batia o pé e amassava a boca,
eu não avisei você?
Lá fora, a noite chorou.
Gotas agora apostavam corrida na janela. O som do pensamento ricocheteava em todos os cantos e derretia tudo o que encontrava pela frente. Veio o costumeiro aperto no tórax, o peito vai encurtando e obrigando o coração a subir pela boca. Sem comentar das lagartas na barriga, arrancando expectativa por expectativa.
A saudade lambeu seu rosto fechado.
Fechado por dentro.
A bituca vermelha rodopiou pela janela, acenou para a chuva e se apagou na sarjeta.
O medo chegou sem pedir licença, com seu sobretudo cor de vácuo e seu rosto mais magro do que se é possível, sentou-se e desandou a soltar conselhos. Conselhos em forma de rojões estourando por todos os lados. Sonhos vermelhos em profusão, rodopiando e urrando até sumir. Enfim não lhe restou mais sonho algum, não nesta noite chorosa, porque você é uma bituca atravessando a janela, querendo se apagar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Até logo Adeus

"Vai, se faz tanta questão
mas não leva a minha paz
que sei bem quanta solidão
traz o vento do nunca mais"


Aprisionados pela espera, creditaram ao destino tamanha ironia. Era mesmo muita coincidência. Falavam do clima, como quem não tem do que falar, concordando que era o início do fim do mundo. Com certeza, está insuportável. O manobrista achou as chaves e desapareceu. Gostoso o lugar, oi, o restaurante...muito bom, é sim. Tentando dar algum ritmo a conversa ela caiu na besteira de perguntar da Julia, se arrependera ainda no meio da frase, mas era tarde. Morreu... A Julia morreu. Ela disse que sentia. Ele sabia que era mentira, que ela não sentia coisa nenhuma, mas tudo bem porque a Julia também não tinha morrido nada.
Naturalmente a conversa entrou em um desconfortável hiato e todos sabem que a ânsia de se quebrar o silêncio costuma ser desastrosa, um terreno bem fértil para a Sinceridade e que esta é predadora natural dos relacionamentos humanos. Mas o desconforto era grande, até as risadas abafadas do restaurante e os talheres que passaram a noite riscando os pratos silenciaram-se, como se comovidos pela situação.
A primeira coisa que veio a cabeça dela: Preciso tomar um banho de vinagre em homenagem a deusa Fortuna. Ele propôs que ela acrescentasse sal e orégano em homenagem a deusa Salada. Gargalharam. Um pouco, não muito. Ela arriscou um "Seu bobo", ele coçou a nuca e devolveu um sorriso unilateral, não estava sendo fácil.
Talvez a fortuna, não sei, enviou o carro dela primeiro. Era o mesmo de cinco anos atrás. Ele acabou notando a cadeirinha de bebê, pensou em uma congratulação ou algo do gênero, mas fez melhor, não fez nada. Ela se adiantou. Ele pensou que um abraço seria aconselhável, pensou que ela pensava isso também, acabaram com um "Então, tchau". Como se fosse algum eufemismo de adeus. Como se fosse um bom final, como se fosse digno. Mas era só uma hipótese, ele pensou. Pensou mais, pensou que ele próprio e até a vida em si não passava de meras hipóteses esguias e pueris. Mas claro que pensar assim, também era.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Joaninhas

Caminhava a menina. Sem saber direito para onde é que ia mesmo. Andava distraída como tanto adorava. Alheia a sina, ao peito e ao que não cabia no tão fugaz agora. Se tudo correr bem, a semana que vem será semana passada - pensava.
Fingia-se de Ana, pois Ana anda sempre a nada que anda à Ana também. O nada que engana Ana, dizendo-se tudo aquilo que Ana tem, que Ana não tem mais que ninguém. Ah, mas Ana ama tudo aquilo que tem, ama sim.

A lua da tarde já ululava tranqüila quando a garota outra vez pensou que seu pensar teria o poder de mudar, talvez, o destino. Quem sabe, sonhou, um tão belo crepúsculo não mereceria uma garoazinha fina. E não é, que sem demora uma bonita nuvem se pôs a precipitar fazendo o capricho da menina, que se perdeu em tanto acreditar?
Quando depois imaginou um minúsculo beija-flor adejando-se ao seu redor e lhe contando os segredos do amor quase que trombou com a ave que lhe cantava uma canção bastante muda, embora soubesse que ela nunca, nunca, poderia esquecer-se da letra. Afinal, poesia é poesia, acreditava.

Que alegria, não sabia ao certo, mas parecia que ela era ao mesmo tempo a nuvem e o pássaro esperto. Sentiu-se, pois, como eles e depois viu que não havia assim lá tanta diferença entre o que se acredita e o que se credita à realidade comum.
Tudo no mundo parecia-lhe em harmonia. Os carros, os fracos, o asfalto, os medos, os erros, a coragem, a verdade, as luzes. Tudo era uma coisa apenas, e ela poderia jurar que ela era essa coisa única. E a vida lhe pareceu bastante amena.

Porém, não há quem saiba muito bem, como é que acaba a história da menina que controlava o destino. Acredita-se que ela acabou sumindo em um desatino. Pois de tanto se sentir em tudo começou a se confundir onde era que ela começava e aonde terminaria, e não mais pôde distinguir-se na tênue linha limítrofe entre verdade e fantasia. Ficando presa para sempre em todas as coisas, e há quem diga que todas as coisas são, também, essa menina que acabamos sempre perdendo no caminho.

domingo, 28 de dezembro de 2008

2008 ou Um estalar de dedos

O destino não me ama mais
coloca outro em meu lugar
outros em sua cama,
diz que eu dou azar,
que dessa vez
não dá,
não deu;

Mas, vamos vivendo
seja como for,
e acaba sempre sendo.
Tem planos pra hoje?
Ah é, vivo me esquecendo.

Puxa, olha o estrago que fez
tantos tanto faz
talvez o quanto eu fiz
não lhe diz o que é paz
vai ver tudo o que eu quis
foi ser feliz demais.

Mas, tudo bem,
é como você costuma dizer:

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Frutas Cítricas

À insubstituível Renata C.

O resto
do rosto que rasgo
na ira
da vida que mato
me tira
o gosto que masco
da ida
de tudo que gosto.

O eco
do oco
que soa
no saco do pouco que guardo
seca o vácuo que veta
o sonho
que sopro à toa.


O lábio que sábio se solta
na busca
da boca
que falta
fala o que o rádio destoa
daquela
outra
que cala.

E meu fôlego
que trôpego foge
do silêncio que grita Renata
move o ritmo sôfrego
e mata
a rima tão rala
desta saindo pela culatra.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Me nina.

A princípio
pretendo não pretender mais nada
A paz eu levo no bolso
amassada
a fome eu como
bem mal-passada.

amanhãs eu matei dois
com uma só cajadada
depois juntei os restos
e doei pra meninada

O difícil é suportar
a desastrosa inércia dos sonhos
que escorregam no sabão
rodopiam e dão risada
do bobo que não quer
dessa vida o que ela trata.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Prefácio

Tento apagar a luz,
no escuro eu enxergo o futuro
e me curo do que me trespassou.
Sento e costuro alguns sussurros
pois não sei se ainda aturo
o silêncio que você deixou.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Esse eu vou chamar de Adeus

O momento em que você se virar, acenando a beça,
a gente se vê, vou tentar vir, me liga,
com o vento soprando seu sorrir sem pressa:
eu vou chamar de despedida.

As horas em que você faltar,
que o silêncio ocupar sua sonoridade
e eu buscar um sonho para poder te abraçar:
acho que posso chamar de saudade.

Os dias que não souberam chegar
se perderam, tontos, na lembrança,
e assim nunca poderão mesmo acabar:
eu já chamo de esperança.

O tempo em que eu passar lembrando
do que conhecíamos por afinidade,
me enganando dizendo estar se acostumando:
Talvez eu chame de eternidade.

E tudo aquilo mais que eu puder tocar
ouvir, cheirar ou ver,
aquilo que irá manter o meu respirar:
Devo chamar de você.

E a você, também chamarei de todas as coisas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Sobre a intenção de construir uma família

Restos imortais quais estilhaços intactos dos dias mais insensatos que se tem notícia.
Alguém, por favor, me diga, quem foi que cometeu a indelicadeza de convidar a tristeza para
passar o reveillon? Não, não, obrigado. Feliz ano, vai bem também. Vamos passar no mercado
e comprar algo que nos furte a vida? Ah, encontrei com o destino apressado, disse estar
magoado que anda sumida, lhe deixou um beijão.
Mas quando perguntado quanto aos escombros do que vinha, o destino deu de ombros, pediu pra
dizer que não tinha nada a ver com isso não.

Alô? Oi. Viu, acontece que gosto de ouvir teus lábios dizendo meu nome, enquanto imagino o
movimento que sua sobrancelha faz, atrás do fone. Acabo que me permito alguns sonhos
insones de momentos que não hão de vir, como apenas caminhar por ai, sem saber como voltar.
É eu sei, soa piegas. Tudo bem, deixa pra lá.

Você diz ser hora de me trocar, mas saiba que ainda não deu para secar os sentimentos que
pendurei. Ahn? Já são sete? Me deixa, não quero acordar, você sorri mais no sonhar. Já vai
começar? Eu sei que sou forte, que vou superar, mas me deixa chorar! É que desta vez, nem
sei bem porquê, eu acreditei.
E olha que o rei acabou por ficar ao lado da dama, deitados na cama, com o valete a zelar.

Ai vem você, querida, irremediavelmente decidida e feliz, contando planos que certamente não
me incluem e ainda pede minha opinião? Vê se me poupa. Você diz que ninguém vai morrer, que
ainda vamos nos ver, que estaremos sempre a mão e então ainda passa meu perfume em tua
roupa me pedindo discrição, me imaginando imune a sua afeição?!
Ah preciso de uma dose de auto-estima, você nem imagina como fica boa com limão.

Maios me partam!

Vejo suas costas mornas, seus passos lentos e azuis, você caminha ao mar. Sem olhar para trás menina! para pedra não virar. Agora sinto nossas
horas mais distantes, o tempo a acenar. Ah, odeio admitir, mas dói saber que você não vai
voltar, dói voltar a você que não vai saber.
Dói ser ridículo e dizer adorar o som do seu caminhar para nunca mais, deixando pegadas
para trás que nem o vento nem o tempo sabem apagar. Assassinou-se o nascimento antes de se
poder lembrar.
Vou e traço no amanhã todo abraço que soltamos muito mesmo antes do que poderíamos
agüentar.

Das duas, uma. Ou só brincamos de viver, vivendo o agora, só pelo prazer. Mas como não ter
esperança alguma, nem que o prazer de hoje venha a prevalecer sobre o de ontem? Ou então,
contratamos algumas boas carpideiras, por uma tarde inteira, não mais do que isso, soltamos
nosso aerofólio e nos entregamos ao vento, com o compromisso de tentar sempre até a última
gota de sentimento.
Tomara que eu não tenha mais anseio algum. Que ironia.

Agora vamos culpar quem? Não podemos meter o dedo na cara de ninguém. Vai, me passa o fogo.
Mas antes de morrer eu queria te dizer que meus dias agora levam teu nome. Nem vem, não me
enche com suas teorias vazias de que não há nada que possamos fazer. Não dá para entender,
desculpa, não fica assim. Antes de casar sara? Para. Saiba então, ao menos, que aquilo que
nunca prevemos acaba por nos arrancar o fôlego mais do que podemos suportar. E quando
morremos, sem ar, é quando sabemos que vivemos, sim.
Vem enfim, e te arranca-te de mim.

Todas as vezes em que eu sorrir, serei seus lábios.
Em todos os meses que hão de vir, eu prometo que serei seus hábitos.
Todas as vezes em que me perguntarem de ti, eu serei sua alegria.
Todos esses jeitos sonhar sem dormir, me farão tua mania.
Todas as vezes em que eu sonhar, eu serei sua esperança.
Todas as vezes em que eu chorar me lembrarei de perguntar se não basta acreditar, que mais
dia menos dia,vamos acabar sendo, um do outro, no pouco que ainda vamos mantendo no peito
tão eternamente afoito.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

AQUELOUTRO

Ruim saber
que me fiz vice sem nem ver
que sentisse o que sentisse
nunca eu poderia ser
mais do que existe em ti de mim.

Fica vai,
isso foi eu quem disse,
você até oscilou,
fez que ficaria, que muito gostaria,
mas não, não podia,
outra vez, talvez,
quem sabe.

De tanto que mingüei
pensei mesmo ser lua
desapontada e nua,
que morria afogada em teu mar.
Sem deixar de admirar
ao céu
sua mania tão burra
de comer estrelas
por tamanho medo de perdê-las

Então você falou,
estou tão confusa.
Me abraçou, cheirou minha blusa,
pediu minha compreensão,
meio sem jeito
como quem pede um coração
Que arranquei do peito
e, claro, entreguei em mãos.

E a cada laço fraco,
beijo abafado,
a cada falta de juízo
de encontros imprecisos
fomos remando juntos
bem para qualquer lado,
devolvendo sorrisos,
revisando alguns assuntos,
gargalhando de bom grado.

Amanhã vemos o que fazemos,
isso nós dois conversamos,
mas fomos guardar nossos remos,
pois perdemos
um pouco da sincronia.
Quando eu ia,
você parava, parecia cansada
e o barco girou e nos perdemos
e se nem sabíamos aonde íamos,
pouco agora podemos
voltar para de onde viemos.

Tanto surpreendente, não?
quando o sol se faz cadente
e não há mais quem invente
em tempo urgente
coisa que esquente a gente.

Mas vá querida, diga àqueloutro,
que eu que sou de veraneio
sou quase nada ou muito pouco.
Meta tua língua entre os dentes,
que eu, o sobressalente,
mereço um pouco sim de seu apreço
mas que nunca,
nunca será o Suficiente.

E agora eu digo: Perdão.
(Perdão pela própria rima)
Perdão
por não querer ser mais segunda via
é que mais do que devia
usei o cabresto da alegria fugaz
e não
não quis
não pude ver
que nem mesmo você via o que fazia
que você só vinha,
quando não tinha
o que tanto quer ter.

Tanto que nos perguntamos
aonde iríamos chegar
que nem notamos
já estávamos lá.
Ancoramos no talvez
e é aqui que vamos ficar.
Remando mais, bem provável
vamos afundar
e nadar até cansar
sem nunca recuperar a paz.
Tanto melhor deixar a esperança para trás,
E levar uma ou duas lembranças estúpidas
para cócegas futuras, a certeza da dúvida,
e nada mais.

Assim, eu direi
Sorria, eu gosto de ti hoje.
Só hoje? Você dirá.
E eu mentirei:
só.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

LÁBIOS RASGADOS

Quando cai a tarde e vejo o horizonte abraçar o sol é quando vai a saudade me sussurrar teu nome, mas ele ecoa tão distante, tão distante. E então eu percevejo todas as entrelinhas brilhantes do céu da sua boca. Mas quem garante? Ninguém garante.

Mas permaneça ilesa, pois eu não vou voltar na frase que costuma cortar esses lábios. Sei que ladram os cães da razão, enormes e famintos, exibindo seus caninos mais perto do que imagino de dilacerar meu coração, mas sinto seu hálito tão próximo, tão próximo. Pois quem sustenta? Ninguém sustenta.

Acontece que você é a quietude de tudo, é meu grito mudo. Quando te procuro só te encontro no fundo de mim, mas eu não tenho fim, não tenho. E quanto mais tento fugir dessa volta insensata mais percebo que só me resta esta saída pela culatra. E quem poderia prever? Ninguém previu.

Dias atrás eu ainda mascava você e ninguem mais poderia entender porque. Eu costumava te vestir para sair pois amava poder rir e sentir como se fossemos um. Na paisagem mais sutil das minhas retinas fatigadas eu ainda posso nos ver como imagens paralisadas onde o tempo e o orgulho não poderão nunca corroer o nosso todo tolo brincar de se viver como se pudessemos, um dia quem sabe, ser apenas um em comum. Mas quem aposta? Ninguém Aposta.

Agora eu atiro pedras, sem forças, contra os moinhos de vento e tento e tento e tento, vencer o inimigo inexistente, que é tão, tão valente, que acho que nunca mesmo existiu. E eu não sei se você pode se lembrar mas eu faria tudo quanto pretendia, eu faria tudo o que você gostaria, mas não ouso mais seu nome chamar. E este aqui é só para que você não se esqueça que eu cortaria qualquer cabeça por você, pelo seu puro viver e se o futuro é sempre assim incerto te ofereco meu abraço perpétuo onde sempre poderá voltar. Sempre, sempre que precisar. Mas quem volta? Ninguém Volta.

Então, permaneça ilesa, pois eu não vou voltar na frase que costuma cortar esses lábios.

Dizer "pra sempre" quase sempre é bem menos do que sentir na carne querer de verdade. E tem coisas que não vão sumir, você sabe. Não vão. Tem um lugar em mim que é só teu, sei que você percebeu. Mesmo que a gente deixe errado a que a gente escolheu. Meu eu me prometeu não dizer ser teu, mas não sei o que aconteceu e agora ele diz ser você, não sei se pode ver, mas ele parece feliz, e lembra mesmo você. Mas quem vê? Ninguém vê.

Às vezes a gente fica assim, mesmo sem motivo, e quer andar por aí. Às vezes a gente não sabe o que quer, mas sabe como é, e quer muito mesmo assim. E é engraçado ver que tudo sempre esteve aqui, mas a gente achava que estava tudo tão errado. Mas vem me ver sem medo de querer qualquer que gosto de te ver vindo rindo e da riqueza das coisas simples que guardo qual tesouros. Vamos só brincar de driblar mal agouros que a beleza está em não ter pressa. Que corremos demais, coração, e é hora de parar, deitar na grama, falar só besteira uma tarde inteira, assim a sós e rir da vida, que ela não para de rir de nós. Ah, deixa isso de lado que esse mundo é todo errado. Deixa qualquer medo para trás e fica perto então que tanta solidão já feriu demais. E quem aguenta? Ninguém Aguenta?

E permaneça ilesa que sei que não voltarei a usar uma ou duas frases que costumam rasgar nossos lábios.

Quero mesmo é ser sincero e dizer que muito me visistas em noites esquisitas que estás distante e não posso te ligar e só me resta para debaixo do cobertor deslizar pensando como seria melhor poder outra vez te confessar que gostaria de nos guardar o instante em um pote qualquer, ali, na estante.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O vão

Ela vinha então vindo mais que sorrindo tão depressa que nem percebestes que já ia partindo, se despedindo, nem ficou talvez.

O coração que saltitava contente, a tino, de tanto que vibrou ficou doente, a boca que salivava secou de repente no escárnio do destino que tornou ausente a sensatez.

O dia que já ia raiando, o céu se amarelando, o orvalho escorregando já foi se acabando, a aurora se estrangulando, se deteriorando, já era noite outra vez.

Eu que estava sendo e tendo o mais que pretendo mal vi que já estava morrendo, se perdendo no que não entendo, e o nada voltou a ocupar tudo, como sempre fez.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Ao invés

Busco em mim um reduto de paz.

Onde seja sempre manhã de sereno, e o sol venha sempre ameno ao ter de trespassar indignado a cortina translúcida antes de me amornar o peito cansado.
Que as lembranças me aninhem em seus colos e me afaguem os cabelos enquanto sibilam consolos e podam anseios.
Que o ar cheire sempre a café fresco e a esperança me oferte bolo e leite, e que o medo se deite estafado e mesmo estressado não reclame algum amanhã adiantado.

Busco em mim um retiro de tranqüilidade.

Onde a mesa estará sempre posta caso a tristeza faça uma visita inesperada e traga cerveja e limões, pois quem é que não gosta de aprender algumas lições.
Onde o amor terá uma cópia da chave e passará longas temporadas com suas piadas estúpidas sobre ex-namoradas.
Onde eu me abrirei todas as janelas vibrantes e espreguiçarei a espera da chuva uivante que agora já chateia o horizonte com raios de nostalgia e não vê a hora de me molhar a alegria que cultivo todos os dias.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Globalização

Estação de trem do Brás. Oito horas da manhã de uma segunda feira chuvosa. Milhares se aglutinam - ocupando sim, o mesmo espaço - em busca das escadas rolantes, que muito estressadas a essa hora da manhã costumam parar - pura birra. Tudo na mais perfeita desordem. Contudo, algo chamava a atenção:
Um totem, com dois metros de altura ao meio do caminho. Aos que sabiam - e o tinham como hábito - ler, a situação causava ainda maior estranheza. Diziam letras vermelhas: "Pressione o botão para retirar cem dólares, contudo, um chinês será morto".
Um senhor de alguma idade parou em frente ao botão vermelho e parecia refletir sobre a situação, um pouco depois foi embora coçando a cabeça. Dois ou três jovens agora liam e reliam os dizeres, seus olhos iam do botão até a gavetinha igual à de caixas eletrônicos onde supostamente sairia o dinheiro. Quando já se formara uma grande roda de pessoas envolta do totem, ouvia-se de tudo:
- É pegadinha, olha a câmera lá. - Disse uma senhora
- Será que é de verdade?
- Como assim, a vida de um ser humano por cem dólares?
- Um chinês a mais ou a menos. - Disse um motoqueiro que deu dois passos adiante e pressionou o botão. A máquina gemeu, um barulho de guilhotina ecoou pela estação. Depois a gavetinha se abriu e uma nota verde vibrou aliviada. O motoqueiro estava pasmo, puxou a nota, verificou se era verdadeira e abriu espaço na multidão, mais pasma que ele. Uma vaia se esboçou, mas foi logo amordaçada. A estação virou um caos. Centenas se confundiam um com as pernas dos outros, não se sabia qual era entre tantas a sua mão, todos buscavam o botão. Um visor laranja acima do totem contava, e subia rapidamente. Só se ouvia gritos de discórdia Essa nota é minha, ou esse chinês era meu! E a máquina guilhotinava e agradecia gentil com outra nota, e outra e outra vez.
É a fralda das crianças, pensavam, se eu não pegar esse dinheiro quem vai morrer sou eu, não deve ser verdade. Alguém até soltou: Que negócio da china!
Quando o visor contava dez mil. A máquina se silenciou. Só depois de algum tempo as pessoas se convenceram que a máquina tinha cansado de tanto sangue. E começaram a voltar a suas vidas normais, contudo duzentos reais menos pobres. A culpa repartida não deveria vir cobrá-los.

Estação de trem de Pequim. Oito horas da manhã de uma segunda feira chuvosa. Milhares se aglutinam em busca das escadas rolantes, que muito estressadas a essa hora da manhã costumam parar. Contudo, algo chamava a atenção: Um totem, com dois metros de altura ao meio do caminho. Diziam letras vermelhas: "Pressione o botão para suicidar-se e doar cem dólares para um brasileiro".

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Conto curto do reino do hoje - três

Eu já me encontrava na última linha da carta que respondia a um velho amigo romano quando minha bela serviçal Aninha entrou em meu quarto e anunciou uma visita.
- Aninha minha querida, receio que não esteja disposto para visitas. - Muito intrigado em quem poderia saber o endereço das minhas instalações, uma vez que mudara não faz nem duas semanas vindo de Aix, e passara essas, me restabelecendo de uma convalescença adquirida em péssimo agouro em uma estalagem que me acomodara na viagem.
- Pois não, meu Senhor.
Eu não podia deixar de me deslumbrar com a beleza de aninha. Embora não tenha comemorado ainda nem quinze primaveras, tem o corpo muito bem estruturado e bochechas que fariam qualquer abade temer pelos seus votos. Já voltava a terminar a carta, disposto a questionar mais tarde a quem eu devia tamanha surpresa quando Aninha voltou.
- Senhor Casanova, o casal imaginou que você não estaria em casa e pediram que eu lhe entregasse esta carta. - Aninha trouxera um envelope muito branco em suas mãos:

Senhor Casanova,
Perdoe nossa falta de cordialidade, mas imaginamos que não nos negaria um lugar para passar esta noite. Estávamos em viagem para Veneza quando soubemos da sua estada aqui e nos perguntamos: porque não ir ter com o admirável Giovanni algumas horas de entretenimento.
Visconde Medo e sua esposa.

Confesso que meu coração quase explodiu de felicidade. Não contava em rever lady Esperança nunca, quanto mais tão cedo e em uma hora tão oportuna.
- Aninha diga que entrem e prepare a mesa e o vinho que cearemos.
Minha adorável jovem se conteve um pouco parecendo não entender minha mudança repentina de humor e ameaçou fazer algum tipo de questionamento. Fato este que evitei logo lhe dando, de bom grado, três luíses que ela aceitou prontamente e se quer pude evitar que ela me beija-se a mão incontáveis vezes.
Senhora Esperança continuava a mais bela das mulheres. Tinha um cabelo loiro que parecia interminável, e às vezes eu cria realmente não ter fim. Seus olhos amendoados e sua voz suave e ressoante traziam uma paz interior instantânea que poderíamos ficar horas apenas a escutar e adorar. Sendo assim, imaginas o quanto grande foi minha força de vontade para que não me enamorasse por ela. E não por respeito ao seu amante, mas por saber que seria melhor ter a esperança ao meu lado como amiga do que correr o risco de magoá-la. O jovem Medo era praticamente antagônico a sua esposa. Taciturno, dificilmente sorria. Sua voz era grave e quase muda. Seus olhos agitados olhavam para todos os cantos a todos os momentos dando uma desagradável sensação de apreensão contínua.
- Belo como Sempre Senhor Casanova. - Aquela voz ressoou em meus ouvidos e como somente ela tinha essa prerrogativa: apenas enrubesci e nada disse.
- É um prazer revê-lo Giacommo. - Disse o medo, o que me trouxe uma imensa surpresa. Medo não me costumava ser gentil, talvez por ouvir falar da minha fama e por sofrer de inveterado ciúme. Sem maiores delongas, imaginando que meus convidados estivessem em jejum de viagem, fomos todos até a sala onde Aninha trazia os talheres. Quando vi não haver à mesa um lugar para ela mesma fiquei feliz por tamanha discrição, esta que lhe renderia mais uns poucos luises no dia seguinte. Ceamos todos muito bem. Bom, Medo não tocou muito na comida ou no vinho, mas talvez fosse uma desconfiança natural, nada de fora do comum. Assim, passadas longas duas horas eu e Esperança já estávamos por mais de satisfeitos a bastante embriagados. Contudo, no rebuliço da inesperada visita esqueci-me de avisar Aninha que preparasse o quarto dos hospedes. Consertado o erro, levei o casal para frente da lareira onde aproveitei o bom clima para fazer o pedido que planejava há tanto.
- Querida esperança...
- Diga bom Casanova. - Ela me interrompeu com seus olhos mirando os meus e seus rosto excessivamente perto mostrando que o vinho lhe havia subido bastante rápido. Medo soltou um gemido e eu me esforcei ao máximo para desviar o olhar e evitar que meu corpo respondesse a proximidade.
- Lembra da bonita cadela que o gentil casal me ofertou no nosso último encontro, a Paixão?
- Claro que Sim, Giovanni. Eu e meu marido adoramos os cães e seus caprichos, assim como, tenho certeza, vossa mercê.
- Sim, é exatamente por isso que lhes digo. Ele infelizmente faleceu de causas naturais.
- Causas naturais? Claro. - Medo desdenhou, mas não pude encontrar vestígios que indicassem algo pessoal.
- Sinto por isso Giovanni, mas esses cães têm mesmo vida fugaz e na maioria das vezes quando estamos mais acostumados com eles, eles se vão.
- Exato. - Concordei e se não estivesse bêbado deixaria uma lágrima cair.
- Tanto melhor, amanhã mesmo providenciarei que lhe entreguem assim que possível uma nova Paixão!
- Tem certeza Esperança?
- E como não? Eu e medo temos um canil imenso no monte ilusão. Farei com que meu criado mais ligeiro vá até lá e se encarregue ele mesmo de lhe trazer um novo cão, mas com uma condição.
- E qual seria essa, madame?
- Que você a trate tão bem quanta a última, e que seus sentimentos pelo novo animal nada deixem a desejar a sua antiga paixão.
- E como eu poderia agir de outra forma, Esperança? É realmente muita bondade da parte de vocês. Ah com que felicidade eu recebo esta notícia. Tenho certeza que está será muito mais alegre e festiva que a anterior, e tratarei para que ela perdure muito mais e que eu venha a aproveitar a todos os instantes enquanto ela estiver ao meu lado.
- Fico satisfeita em ouvir isso de você Giácommo.
- Tome cuidado Giovanni, não se entusiasme tanto. Querida, deveria ser um pouco mais realista com nosso anfitrião. Ele pode acabar se ferindo, esses animais são sempre tão indóceis. - soltou o medo com bastante ímpeto.
- Ah, meu querido, você que se preocupa demais, tenho certeza que dará tudo certo.
- Bom, independente do que aconteça eu aceito o desafio. Não poderia me negar essa dádiva. Criar esses animais pode se tornar um hobby, caso eles insistam em me deixar.
- Casanova, você superestima suas forças. - murmurou em represália o medo.
- Mas a humildade é o maior dos males, meu querido infindável, pelo menos para nós, mortais.
Dito isso, Esperança apenas frisou o quanto estava radiante de me ter como companhia por esta noite e que tinha grandes expectativas que minha nova paixão me traria muito grado, e tangeu o assunto para o fim da minha doença que ela tinha certeza não retornaria nunca, embora Medo não compartilhasse desta opinião. Após me despedir dos hóspedes fui me deitar e Aninha veio me fazer a toilette e eu quase tive esperanças que a Esperança tivesse sido mais ágil do que me prometera.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Permanece imune o que ainda nos une

Lembra que certo dia,
na alegria do nosso futuro apogeu
escrevi no tronco duro de uma árvore
o meu nome e o seu,
separados apenas por uma conjunção
e circundados por um coração?
Você achou a árvore linda,
e a idéia muito bem vinda, por sinal.
Haviam me dito que aquilo que se rasga na casca
ali permanece por toda uma eternidade.
Na verdade até duas.
Então,cortaram a árvore, meu anjo.
Mas tudo bem,pois o destino já tinha nos cortado muito tempo antes não é mesmo?
Onde será que está nossa eternidade agora,
onde é que foi parar?
Talvez seja a camaonde você costuma se deitar
com quem quer que seja,
que até comenta como a cama agüenta tamanha falta de sacies.
Tenha dó.
Ou talvez
seja agora este fósforo que não quer acender,
que sei, só comecei a usar pois você foi embora.
O que posso fazer.
Também outrora,
até escrevi no cimento fresco da calçada da orla
nossas iniciais em consenso,
que como tais deveriam traduzir um sentimento.
É que eu cri que ao menos aquele momento poderia se perpetuar.
Quebraram a orla, meu anjo.
Porém, tudo bem,pois já haviam nos quebrado um pouco antes,
não é verdade?
Aproveitaram o entulho para montar o quebra-mar.
E agora acho que nosso infinito está lá,
querida, quanto orgulho,tentando se esquivar da erosão
na lambida das águas da desilusão,
anos de ondas de desesperança.
O limo
fará com que caranguejos escorreguem,
assim como nossos velhos beijos me perseguem
quando passeio à margem,
alheio a imagem da minha irmã caçula,
a ansiã ignorância.
Acho que nada mesmo resiste ao salitre.
Não sei se você se recorda, mas desenhei com gosto,
seu rosto em toda a bordado meu coração,
entre cicatrizes e raizes secas,
dezenas de calos e felpas pequenas.
Na pretensãode que só mesmo eu tivesse permissão
de ir ajustando o intervalo do para sempre
do nosso insano temporão.
Contudo,
me roubaram o coração, meu anjo.
Eu não faria disso um grande problema,
nada que demande uma atitude extrema
uma vez que já haviam nos roubado há mais de mês.
E é ai que mora o meu dilema, pois até onde me consta,
estratagemas de terceiros, por mais certeiros que sejam
não esquartejam o encanto.
Não nas duas pontas.
E agora temo que com tempo e imensas doses de corretivo e afeto
me apaguem seu desenho, que já me foges
deixando apenas resquícios
não muito mais do que isso.
Quando no soltício de um inverno qualquer,
mesmo sendo paliativo, se ela quiser
me tatuará o alvorecer definitivo, em tom sour tom,
e não mais estaremos juntos em lugar nenhum.
Pois foi-se a árvore e a orla, foi-se meu coração em jejum;
A foice de aço da sorte terá então, em fortes golpes - à altivez de ogum
quebrado de vez nossa comum união.
Sete pedaços meus, nove seus.
Mas, veja bem,
se a vida não tem,
dentro do possível
sido complacente com a gente,meu anjo.
Talvez,
talvez exista um lugar,
onde o nós ainda resista,
onde ninguém pode entrar.
Bem ou mal, a sós se habita
no quintal das memórias,
tantas histórias antigas,
que não hesitaremos em contar
a quem consentir em ouvir,
e até mesmo para quem não merece escutar.
Porque um dia fomos lá plantar, uma muda de sonhar
e está ninguém muda de lugar.
E já se sabia que viria a frutificar,
pois na alegria ela cresce sem regar.
Então, lágrimas adubarão nosso pé de lembrança,
onde descansa o não mais voltar,
fazendo brotar esperança e fé,
mas não de alguma mudança na sina,
mas de que enfim,
de uma forma ou de outra, menina,
eu em você e você em mim,
antes tão afoita agora mansa,
adormece confortável quando nos amanhece:
nossa infindável aliança.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

CONTOS CURTOS DO REINO DO HOJE - UM

A sua frente havia um grande corredor antigo. O chão era todo sobreposto por um carpete muito bonito vermelho vinho. As paredes eram cobertas por um papel de parede um pouco mais claro que o carpete com bonitas flores douradas estampadas dando um ar aconchegante ao lugar, embora ainda bastante assustador. A má iluminação do corredor advinha de duas portas laterais em seu curso, feixes de luz claramente de velas ondulavam por sobre o carpete. E no fundo do corredor um grande portal guardava um quarto maior e mais iluminado que os demais e era justamente lá aonde a garotinha deveria ir.
Suas pernas tremiam o suficiente para que ela tentasse buscar apoio à parede, mas ela não alcançou, nunca alcançava de qualquer forma. Odiava vir aqui, coitada. Uma lágrima lavou seu queixo quando se lembrou de que na parede do grande quarto ao fundo havia um quadro horrível que arrepiava toda sua espinha só de lembrar. Prometeu então a si mesma evitar ao máximo olhá-lo.
Na ponta dos pés para evitar acordar os moradores começou a cruzar lentamente o corredor. Não que ela soubesse que estavam dormindo, mas acreditar nessa hipótese fazia bem. O silêncio era tanto que mesmo andado descalça sobre o carpete ela conseguia ouvir claramente seus passos e por vezes eram estridentes ou abafados e a maioria quase ensurdecedora. A garota pensou em seguir de olhos fechados, mas todas as vezes que fazia isso o corredor parecia se alongar o dobro de passos que dava. Quando estava à bem uns quatro metros da primeira porta, a sua direita, olhou para a segunda mais a frente já esperando pelo que acontecia todas às vezes. E aconteceu. Quando viu o cachorro branco seu coração pulou. Já esperava por isso, mas era cada vez mais assustador. Seus pêlos eram compridos e brancos ainda que meio amarelados, era um cão grande embora muito magro. Como era costume a menina parou com os cotovelos flexionados e as mãos espalmadas como se esperasse defender-se de um ataque, e com a cabeça baixa apenas o olhava de canto de olho. Sua franja loira cobria um dos seus olhos, mas podia ver suas mãos tremendo muito mais do que pensou ser possível. A cada passo do cachorro seu corpo gelava um pouco mais e por um momento achou que suas pernas perderiam a estabilidade. O cachorro branco seguiu seu rumo até a primeira porta sem tirar os olhos da menina, como sempre fazia, pata por pata foi amassando o carpete. Tinha a boca aberta ofegante, mas não demonstrava intenções de atacar. Alguns segundos depois que o cachorro passou a menina pensou que precisava voltar a andar e um pouco mais tranqüila, andou, porém agora olhava para a parede esquerda, pois não queria olhar através da primeira porta. Contudo, depois de alguns metros se lembrou da porta á sua esquerda e voltou correndo o rosto para a outra parede, mas como sempre fazia, o fez muito cedo e pode ver o cachorro dentro do quarto que o cachorro com o rabo entre as pernas arrancava um pedaço com bastante fúria de algo no canto do mais mal iluminado do quarto. A garota sabia por experiência que eram corações. O cachorro virou o focinho para porta e a menina imaginou que dessa vez ele estava mais sujo de sangue do que o habitual.
Quando virou o rosto para frente viu de canto de olho a porta do segundo quarto, à sua direita. Pôde sentir todos os seus ossos vibrarem. Outra vez viu uma garota um pouco mais alta que ela andando da mesma forma e ao mesmo tempo do lado de dentro do quarto. Era como um espelho, sempre imaginou ser um espelho, mas a garota do quarto era morena e não loira como ela e via-se ao fundo um quarto e não o corredor vermelho vinho. A menina um pouco sem ar parou e esperou pala cama. Sem demora uma cama de casal com um bonito lençol de linho azul veio deslizando pelo corredor até acolhê-la. A cama tinha um gostoso cheiro de paz e mais uma vez a levou a até o quarto do fundo que era todo verde musgo e tinha móveis de madeira muito escura. Evitou, como se prometera, olhar para o quadro a sua frente que ficava sobre uma mobília muito estranha com diversas gavetas todas em tamanhos diferentes. Seus olhos temerários procuraram a direita do quarto pelo berço, também escuro, que de tão grande parecia ser feito para um adulto. A garota soltou um gemido inaudível quando viu dentro das grades o cachorro branco sentado olhando como se através dela. Ao lado dele reconheceu a menina do segundo quarto. Parecia realmente consigo, mas tinha o cabelo moreno e aparentava ter vinte ou trinta anos. A jovem morena tinha as duas mãos tampando a boca como se escondesse um sorriso infantil e balançava a cabeça indicando que a menina não deveria estar ali. O cachorro deu duas voltas em torno de si e se sentou.
Do lado esquerdo do quarto havia uma janela sem paisagem que lembrava uma televisão desligada. Embaixo da janela estava uma cama de solteiro onde havia um par de sandálias, um par de meias, uma saia, uma blusa e uma peruca grisalha. Montadas para parecer um corpo sobre a manta verde. A garota sempre se perguntava porque alguém faria uma peruca grisalha, e novamente foi até a cama e vestiu a blusa xadrez. Sobre a penteadeira entre incontáveis perfumes e caixas de jóias viu um retrato com uma mulher muito bonita, vestindo preto e com uma expressão muito séria, a garota reconheceu sua madrasta. Deu um passo para trás temendo que aquelas coisas fossem dela e que ela poderia aparecer a qualquer momento. Uma caixinha ao lado do retrato se abriu e começou a tocar para uma bonequinha loira vestida de bailarina dançar. Junto com ela um cachorro branco saltitava.
Ela não vai gostar disso, - pensou a menina - tirou a blusa e jogou-a sobre a cama, não queria apanhar outra vez. Diria que não sabia que as coisas eram dela. Mesmo sabendo que isso não adiantaria. A música da caixinha foi diminuindo seu ritmo se tornando a cada compasso mais funesta. Enquanto andava para trás a garota olhou para o espelho da penteadeira,onde viu a garota morena andando em direção a ela, pôde agora ver seu rosto e viu que realmente era ela daqui a alguns anos, teve certeza disso. Mas ao olhar para trás a menina loira não viu sua versão morena, embora ela continuasse avançando no espelho, então a menina tropeçou em algo e caiu de costas, mas antes de atingir o chão pôde ver que a garota morena fez menção, dentro do espelho, de lhe estender a mão. Sentou-se rapidamente e pode ver o que a derrubara, era um cachorro de pano em um xadrez vermelho com botões no lugar dos olhos. Quando pensou ter visto que o cachorro tinha levemente abanado o rabo fechou os olhos com toda a força que encontrou. Fechou tanto que imaginou ter botões no lugar dos olhos. Levantou nervosa, levou a mão direita ao rosto e verificou que ainda estavam lá. Aliviada, os abriu e para seu azar a primeira coisa que viu foi o quadro. Tinha uma moldura simples de madeira escura, sem nenhum adorno. O quadro era todo escuro e no centro via-se um rosto de um palhaço, só o rosto era o quadro. O palhaço chorava, tinha uma expressão de profunda tristeza e assim a menina chorou também. Odiava o quadro, para ela palhaços não podiam chorar. Neste instante ouviu passos tão ensurdecedores quanto os seus e não conseguiu distinguir se estavam no quarto ou na imaginação dela. Pensou que fosse sua madrasta e soluçando se explicou:
- Me perdoe tia, eu não sabia que essas coisas eram suas.
- Não me chame de tia. - Respondeu uma voz muito doce que parecia vir de todos os cantos. Sentiu-se feliz apenas em ouvir aquela voz. - Essas coisas são suas, Esperança. - Esperança não queria abrir os olhos, ouvir aquela voz aveludada lhe trazia uma vontade forte de viver, de ver todos os alvoreceres de agora em diante, de correr no campo até chegar o amanhã. - É gostoso ver como eu era nessa idade, já curiosa e corajosa. Sabe esperança, muita coisa vai lhe acontecer, mas... - A voz parou por um instante. - Sabe, seu pai te ama muito.
- Eu também amo meu pai. - Gritou emburrada a Esperança ainda sem abrir os olhos.
- Eu sei querida, eu sei. Ele também tem certeza disso. Mas nem sempre... - A voz cessou novamente.
Esperança abriu os olhos e pode ver a garota morena ajoelhada em sua frente, o cachorro branco dormia no berço, e a roupa estava esticada novamente sobre a cama. A garota voltou a falar, agora tinha um grande sorriso no rosto.
- Você precisa entender sua madrasta.
- Eu não gosto da Tia Dor, e ela não gosta de mim. - A esperança agora soluçava.
- Ela gosta de você sim, é apenas o jeito dela. Tome. - A Esperança morena lhe entregou uma foto, tinha as mãos muito enrugadas demonstrando uma idade que o resto do seu corpo não mostrava. A pequena esperança estranhou que a foto fosse colorida. - A cada dia que passa tudo parecerá mais difícil, mas lembre-se, você precisa lutar para sobreviver e para manter os seus sonhos, mesmo que às vezes eles sejam apenas seus. Eu sei que é difícil, querida, mas este lugar precisa de você.
Na foto, Esperança reconheceu seu pai que mais jovem do que nunca sorria bastante ao lado de uma moça muito, muito bonita, embora tivesse o olhar aparentemente vazio. E no canto da foto estava a garota morena, contudo estava loira, e não restaram, a pequena, dúvidas que aquela era ela mesma.
- Essa moça ao lado do pai, Es, é sua mãe... Nossa, na verdade. - Esperança não disse nada apenas olhou para a foto. - Seu nome é Fé. Um dia ela ficará muito doente e você deverá procurá-la. Apenas... Apenas lembre-se disso.
Esperança tentou dizer algo, mas foi derrubada sobre a cama de lençol azul que agora voltava no corredor a toda velocidade. E antes que tudo ficasse escuro ela pôde se ver, morena e linda, acenando pelo portal do fundo do corredor vermelho com o cachorro branco ao seu lado, agora abanando o rabo e latindo feliz e quanto mais à cama se distanciava mais o latido parecia perto.

Esperança abriu os olhos, e lembrou-se que estava em um quarto de hotel, em alguma cidade do norte da Irlanda. O sol entrava forte pela cortina translúcida indicando que já devia passar das dez da manhã. Em pé, apoiando-se na cama, estava o cachorro branco que parecia contente por ter conseguido acordar Esperança.
Sentando-se na cama de linho azul a menina, já uma bonita jovem, pensou que esse pesadelo estava ficando cada vez mais freqüente. Ao lado do abajur pegou uma foto onde à frente de uma linda praia que ela nunca conheceu estava parada radiante junto com sua mãe Fé que ela também nunca conhecera e mais à frente seu pai Amor:
- Onde você está mãe! Este reino precisa de sua ajuda. Embora o Acaso tenha me assegurado que ainda temos tempo eu já não me sinto tão segura quanto antes e esse centauro altivo nunca sabe o que fala. A última vez que vi Aurora ela já parecia fraca e cada vez menos disposta a voltar ao Reino do Hoje e ainda por cima BomDia compartilha da minha opinião.
Esperança sorriu timidamente para o cachorro que lhe pedia insistentemente carinho. Afagou-lhe embaixo do pescoço e disse:
- Paixão, estou sentindo que hoje encontraremos minha mãe, você não concorda? Ah,v ocê se lembra dela não é mesmo?
Paixão soltou um latido que Esperança entendeu como um sim nostálgico. E se apressou para sair, tinha que correr: seu pai, Amor, estava muito doente.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A PIOR DAS HIPÓTESES.

Será que basta dizer, ou informar, como só você soube agradar
minha alma.
Talhando em mim, agora enfim,
o maior dos sorrisos.

Quando está por perto,
de certo que o mundo respira mais,
quando está ao meu lado, porque não confessar,
o problemas desastrados costumam me deixar em paz.
Desde a primeira vez em que meus lábios
se pressionaram contra os seus
e me fizeram pensar, que talvez:
Na pior das hipóteses, isto é amor.

Ah, e que tolice fizeram os deuses,
tão lisonjeiros, quando nos arremessaram ao infinito do segundo
mais ligeiro.
Como se eu preferisse a pieguice do erro mais certeiro
quando nossas bocas sibilaram sincronizadas,
e nem notaram de tão ocupadas,
algumas asneiras sentimentais quaisquer.
Quando pensei:
Ah, na pior das hipóteses, isto é amor.


Quando transbordou-se os muros,
imensos e seguros, que separavam o bom senso do senso comum,
e quando nossos sonhos entrelaçaram os dedos, as línguas e os
medos
se desfazendo em segredos,
me fizeram entender:
Ah, na pior das hipóteses isto é amor.

O tempo, senil,
quão mais nos aproximava o coração
mais nos distanciava os corpos, presos ao grilhão
que não nos permitiu enfileirar os quatro pés.
Assim, e nada me tira que por má fé,
se enegreceu o céu dos justos
fazendo garoar receios.
Mas mesmo encharcado
nosso querer
já muito unificado. Transcendeu a órbita dos olhos chorosos,
e assim eu pensei:
Ah, na pior das hipóteses, isto é amor.

Essa mania que criamos e teimamos,
pois todo dia temos feito, escrevendo memórias no peito
com a tinta divina do suave anseio-mais-que-perfeito,
dezenas de vezes mais permanente que a eternidade.
Foi, na verdade, o que me fez crer:
Que na pior das hipóteses, isto era amor.

E pensar,
que tudo que eu queria era jantar,
e você disse que até viria,
não sei se fiz bem em esperar.
Mas quem iria dizer, não é? ou apostar,
qualquer coisa eu esquento para almoçar.
E é justamente, a falta do receio,
de ver que você não veio
ver vazio à mesa, o outro lugar
que me faz saborear:
Na pior das hipóteses, isto é amor.

E foi, justamente quando,
tudo que eu precisava era não sonhar,
que sonhei.
Ah,eu sei que você vai me perdoar.
Qual júri, também, poderia me julgar culpado,
só por não ter encontrado,
logo cedo, o retorno mal sinalizado.
Mas tenho o tanque cheio,
e o rádio está ligado,
não gostaria que você se assustasse,
quando, em um sonho, eu te contasse,
que na pior das hipóteses, isto é amor.

Estive parado, longe e distante,
com um olhar vazio, as vezes acho que estou cansado
demais pra lutar.
Mas quem poderia negar, que eu sentado
podia escutar, no farfalhar dos galhos,
no deslizar do sol no manto azul, o mundo animado,
girando e gritando:
Na pior das hipóteses, isto é amor!

Ah, temo que não será possível,
muito mais se esconder,
na trincheira mais crível das mentiras.
Se a cada suspiro, se torna mais insustentável,
se de súbito um tiro
tornará o mais belo, no mais lamentável,
na falta de romper, qualquer que seja o elo
talvez seja necessário, deixar de ser adversário,
criando farpas por debaixo das máscaras,
que não pretendemos deixar cair.
Lendo só a capa, do livro mais aberto
que não queremos deixar cair.
Ah, talvez você até confesse,
quem dera o fizesse,
que caso seja mesmo, esta a melhor maneira,
virar a direita, que apesar
de tantos dias e tantas mudanças,
você preferiu não me apagar,
que ainda tenho lá, meu espaço nas lembranças,
e que um dia, qualquer, entre fumaça
receios e esperanças, você me olhou
e pensou, deixando a ampulheta parar:
Ah, na pior das hipóteses, isto é amor.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Esses nosso olhos

O universo é infinito mas cabe na palavra.
O verso mais bonito sabe bem mais do que lavra.
O que me é imerso, contudo, não é muito mais do que nada se sou só outra palavra no teu vasto universo.

Mas faz de conta que nos conhecemos hoje.
A primeira vez que nossos olhos se olharam se reconheceram e notaram, que não eram dois, ao total eram quatro.

Esses olhos, olhos que de tanto olhar falam, embora só agora vemos que nunca entenderemos realmente as verdades que falam esses olhos que nos olham.
E por vezes, indignados com nossa surdez, choram.

Choram um sim, choram um não, lavam amanhãs, e inundam ontens.
Choram sincronizados, choram calados, choram os olhos que nos falam.

Outras vezes, contudo, se negam, tão altivos, a verter uma lágrima que seja, marrentos se mantêm secos.
Esquivos, fogem dos dedos, não querem afagos.
Mas se prestássemos atenção, ouviríamos que, amargos, quando acham que estamos distraídos eles falam entre si, falam de um sim ou de um não, falam do amanhã e do ontem, falam os olhos dos olhos que nos faltam.

Faz de conta então, coração, que nos conhecemos hoje.
E cada amanhã será um hoje.
A cada dia será na magia do primeiro encontro que se reencontrarão nossos olhos, quando se refletirem, tão contentes, talvez chorem, se se permitirem, claro.
Choram os olhos que se olham.

Quero assim, viver eternamente só mais este momento, olhos marejados se reconhecendo, diferentemente, pela centésima "primeira vez", se encontrando e se perdendo, sorrindo e cedendo lágrimas de alegrias pelos dias que ainda trazem saudades das idades que ainda hão de vir.
Sonham os olhos que nos calam.

Até que um certo dia, que também será, fatalmente, outro hoje, ora, quando esses olhos de tanto olhar nos verão se aproximando, retornando de um lugar qualquer onde eles não podiam se avistar, vão então, vibrar, com o reencontro na milésima "primeira vez", felizes apenas por se olhar.
E eu te imploro, coração, não diga nada, querida se quiser e puder me abraça, mas não, não fala:
olha.

Faz de conta que nos conhecemos hoje.

sábado, 14 de junho de 2008

O CONTRA-FLUXO

É chegada a hora.

Levantai, ó gigante adormecido. Despertai do teu sono milenar. Abra teu uno olho e vê que todas as coisas só têm mesmo uma face. Lavai a sujeira dos teus anos oníricos e cuspa toda baboseira que lhe puseram à boca. Chacoalhe teus ombros e derrube todo um inferno que lhe ataram às costas. Não há, mais, tempo a perder.

Cerrai os punhos e preparai tua vingança contra os indignos ultramundanos que lhe tomaram sua essência e lhe prometeram os céus, se esquecendo que tu vives na terra. E somente só. Não desperdiçai mais teus dias.

Nós, os além-homens, lhe invocamos grande Polifemo, atravesse o abismo como nós, e voltai para nossa margem de origem. Seja, enfim, feita tua vontade.

Não deve haver perdão, eriçai tua anca, bradai teu ódio. Tomaram-lhe teu único olho, lhe contaram mentiras, te fizeram esquecer-se da tua natureza, do passar dos dias, do teu pai Devir.

Apolo, mimado e mentiroso, sempre teve inveja e ciúmes de como Díonisio nos influenciava. Por isso o prendeu no calabouço da moral. Mas é chegada a hora do resgate.

Pois sei que ainda te lembras Polifemo, de como, eu, você, e Dionísio, zombavamos de helena, e de como ela era tão chata e convencida quando éramos pequenos?

Se lembra também de como Eros nos visitava sempre sem que notássemos suas ausências tão providenciais. Sempre que ele sumia, nem nos preocupávamos, sabíamos que ele voltaria. Talvez ele tenha se enchido um pouco da Pólis, dizíamos nós.

Ah, e como riamos de Narciso que nunca chegava a tempo, e como abraçávamos Laocoonte dando-lhe palmadas no ombro, quando este contava suas mazelas, brindávamos a ele e ao amanhã e tudo se resolvia.

Viste Polifemo, a vida não é mais a mesma.

A Esperança, filha bastarda do Sonho com Delírio, tomou o poder do pobre Anseio, que vaga por ai esquecido. Todos agora esperam. Querem e se cegam. Todos exigem suas mercês. E não acham justo que lhe sejam negadas. Ah, é mesmo, quase que me esqueci que tu dormiste antes de conhecer a justiça, pupila da Mentira, virou braço direito da rainha Dor e comandam o mundo com seus caprichos depois de amaldiçoarem o Rei Amor, que dorme na torre mais alta da inconsciência humana.

Acorde Polifemo, destronemos Platão. Que altivo, ri por ser o maior mentiroso de todos os tempos. Germe da desgraça. Cortemos-lhe a cabeça e a penduremos na praça da ilusão, já que lhe era a predileta.

Esperamos Polifemo, teus impulsos de gigante. Teu cíumes de gigante, tuas lágrimas de gigante. Ansiamos a volta de teu gargalhar de gigante. Tua resignação para com o vir a ser, para com a eterna contradição. Esperamos Polifemo, que salvemos, o mundo dele próprio.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

(I)

Sejamos, pois, super homens.
E o eterno retorno se encarregará do resto.
Marchemos nós a frente, e quanto mais, melhor, dos nossos medos e da esperança. Sejamos heróis.
Para andar nas nuvens foi preciso se afundar nas lamúrias, para descobrir a razão foi, e sempre será, preciso explodir na emoção. Dinamite de instintos. Definitivamente demasiadamente humano.
Ria.
Ria de si mesmo, eu o farei também.
Temos ai, contando com extrema generosidade, mais 65 anos para usar como preferirmos.
O que você preferirá? Há de continuar na normalidade da ignorância adquirida nesse mundo onde pensar é a última coisa que se precisa fazer. Que se apressa o viver, o morrer, o sofrer. - Antes de casar há de sarar. Tomara deus. Este último que continua amando as jovenzinhas, principalmente as mais belas. – Não, tenho certeza que teu espírito sábio não lhe permitiria isso.
Busque.
Busque o prazer não a felicidade, a felicidade é conseqüência.
E está dentro de você.
Á propósito, tudo está dentro de você. Até seu rival. Concorra contigo e apenas contigo.

O amor, para Friedrich, é pura questão de obsessão, de possuir o 'bem' da alma do amado e dele o amor, impreterivelmente, para si e nada além. Discordo. O amor verdadeiro, para Wilde, é invenção das camadas populares que não teriam nada melhor para fazer. Discordo, em partes. A teoria dos afetos de Spinoza, diz que nossa potência interna só se é alimentada, externamente ao indivíduo enquanto si mesmo, pelo amor. É ai, que minha teoria começa a se desenrolar. É na quebra da dicotomia entre o egoísmo e altruísmo, é na noção de Faz-fazer, na cumplicidade, na expansão ipsis litteris do espírito de si, é na diferença – e veja bem – da fidelidade com teimosia e, também na ausência do anseio pela reciprocidade.
Mas isso deve me tomar alguns outonos mais.
Reflita.
Que o farei támbém.
Não é hora de dizer nada, a poesia preenche dias vazios, o espírito Dionisíaco preenche vidas vazias, a filosofia invade o motivo que lhe expulsa da cama, todas as manhãs.

É hora de, se e somente se, nosso material acompanhar nosso ideário, preparar uma dúzia, quem sabe, de boas histórias para o divertimento e entretenimento do bom Cérbero, que nos espera ansioso. E quem vai dizer que não é, isso ao menos, recíproco.

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